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26/02/2018

O amor do terapeuta


por Catarina Nascimento Rodrigues


Publicado originalmente no Jornal Público de 1 de Junho de 2017


Para que seja possível uma Análise bem sucedida não basta apenas a técnica psicanalítica. A meu ver, a retoma do desenvolvimento só é possível porque, na relação com o terapeuta, se sente, de forma inequívoca, como só o inconsciente pode saber, o entusiasmo e o afecto deste, que, na escuta atenta e interessada, sente esperança e prazer em estar/conhecer/acompanhar as mudanças/dores/conquistas/decepções do seu paciente. Sem julgamento e sem expectativa. Mas com aposta. Com criatividade e persistência no alimento do laço afectivo criado face às desesperanças e descrenças do paciente. Com esperança no futuro e na realização pessoal deste. Tudo características do que designo por amor do terapeuta.

É a arte da nova relação que se instala entre aquele paciente e aquele terapeuta naquele momento das suas vidas, permitindo ao paciente uma experiência bem sucedida de ser ouvido, compreendido e estimulado. Em minha opinião, o entusiasmo e o estímulo que o terapeuta demonstra, consciente e inconscientemente, pelo seu paciente - e que nada mais é do que a resposta complementar face ao que falhou -, incentiva este último a assumir a sua agencialidade e conquistar o prazer e a realização pessoal na sua vida.

Sozinhos sobrevivemos. Com o outro, conquistamos o prazer e o sentido de viver. Vivemos com o outro. Crescemos e expandimo-nos em sociedade. Porque o reconhecimento e o orgulho do outro são “alimentos” essenciais. É a certeza da partilha e do olhar deslumbrado do outro que estimula a criatividade, a beleza e a inovação das nossas criações.

Mas, entenda-se, esse estímulo, esse incentivo por parte do terapeuta não é o mesmo que delinear um caminho para o seu paciente. É um incentivo que nasce do profundo conhecimento e da sintonia sentida com o seu paciente. Trata-se de dar voz ao paciente, numa escuta atenta e interessada daquilo que é dito de forma consciente e daquilo que se sente do que é dito de forma inconsciente – o self autêntico do paciente.

Para mim, a atenção, o interesse, o afecto real do terapeuta pelo seu paciente são o núcleo de uma relação terapêutica bem sucedida. O interesse genuíno demonstrado vem colmatar a falha primária e devolver o sentido de valor e de importância ao sujeito e, assim, permitir-lhe reconhecer-se como pessoa com valor e passível de ser gostada e admirada. Não existimos como pessoas sem essa postura interessada e amante do outro significativo. Ela é a base da vida mental e emocional. Coimbra de Matos realça neste sentido o facto de a espécie humana ser a única onde se amamenta e se ama olhos nos olhos/face a face.

Neste sentido, o terapeuta que acompanha o paciente pelo inferno emocional da sua depressão não pode ser neutro, distante, enfim, um técnico. À semelhança da relação primária, a possibilidade de olhar o terapeuta/a mãe, perscrutá-lo/a, senti-lo/a é importante para conseguir encontrar amor por si mesmo no olhar e nos gestos do seu terapeuta. Precisa ver para crer. Precisa utilizar os vários sentidos para aferir da veracidade do afecto do terapeuta. Precisa sentir o calor do seu afecto na comunicação intersubjectiva que vai acontecendo ao longo das sessões.
Para tal, o terapeuta precisa sentir-se livre para se poder implicar com autenticidade naquela relação. Precisa confiar em si mesmo e na sua intuição, assente na boa sintonia construída com o seu paciente, para encontrar a resposta única e criativa em relação àquele paciente. Não pode fechar-se na neutralidade da técnica. Precisa sentir-se livre na nova relação construída, dando-se também de forma inteira, persistente e criativa.

Relação Psicanalítica: uma relação a Olhar para o Futuro


por Catarina Nascimento Rodrigues


 Publicado originalmente no Jornal Público de 8 de Junho de 2017

Penso a relação terapêutica como uma relação de enfoque no maior auto-conhecimento do paciente (e do terapeuta, por consequência de ser um processo rico também para este), de onde resulta uma maior capacidade de se constituir como agente da sua vida. A relação terapêutica profícua permite a descoberta de novos estilos relacionais dentro do próprio e é privilegiada porque, quando se chega ao terapeuta, pelo menos uma parte da pessoa está receptiva à mudança e à auto e hetero-análise.

Muitas vezes, a mudança é já desejada pelo próprio, mas, no clima emocional em que vive, por se ter desenvolvido o que Coimbra de Matos chama o ciclo vicioso, é muito difícil consegui-la. Constituiu-se um modelo relacional de referência como resposta possível ao clima emocional oferecido pelas figuras significativas. É necessário a intervenção criativa e livre de um outro que possibilite ao sujeito ter a hipótese de desenvolver o estilo relacional desejado ou, pelo menos, sair da trama emocional enquistada. O terapeuta está numa posição privilegiada para oferecer tal experiência relacional pela sua formação profissional, mas sobretudo se se sentir profundamente interessado por aquele paciente.

Tal caminho não ocorre da noite para o dia. Necessita de uma continuidade na experiência dessa relação bem sucedida com o terapeuta para que se consolide e, assim, possa ganhar peso sobre a dor e a desconfiança na mente moldada pelas más experiências com as figuras significativas. Demora o seu tempo a que a confiança no amor/interesse genuíno do outro por nós próprios (e, consequentemente, a confiança e interesse de nós por nós próprios) tenha mais peso que a desconfiança (no sentido de perda de confiança) no outro (e em nós), assente numa experiência precoce decepcionante e desvalorizante. Demora tempo a deixarmos de nos ver no reflexo do espelho dos outros significativos e passarmos a vermo-nos noutros espelhos, que, narcisando-nos, nos permitem construir o nosso próprio espelho: vermo-nos a nós próprios. Demora tempo a perceber como esse espelho primário nos deformou e acreditar que podemos ter outra forma. Uma forma que intuímos em relação a nós próprios e que é aquela que esperamos que o terapeuta reconheça e com a qual se relacione… dando menos enfoque à forma de relacionar doente e enquistada… que acaba, numa análise bem sucedida, por perder a dominância.

Provavelmente, existe um limite para a transformação possível pela psicoterapia. Existe provavelmente um núcleo que, tendo sido instituído precocemente, antes da palavra, como em situações de quadros de depressão, é difícil reverter. O olhar da terapia é, por isso, para mim, para o futuro. Só no futuro podemos fazer diferente. Mais conhecedores de nós próprios e com novas ferramentas relacionais, emergentes no afecto e na sintonia da relação terapêutica. Por isso, falo de esperança. Esperança num futuro diferente. Mais feliz, num sujeito mais capaz de se sentir agente da sua vida, com maior conhecimento de si mesmo e dos outros, mais livre para optar nas relações que o rodeiam.

O trabalho psicoterapêutico é acompanhar o paciente na sua auto-análise. Neste processo existe alívio e cura do sintoma… mas é a relação afectiva estabelecida entre terapeuta e paciente que traz um novo estilo relacional que será o grande motor de mudança do sujeito. Ou seja, a pessoa não muda apenas porque compreende a sua história. A pessoa muda porque existe uma relação onde, sentindo-se amado/apreciado, compreendido e estimulado, ganha motivação/impulso para se lançar na sua própria vida, para dar acção ao seu projecto de vida: aquilo que acredita/sente que é o que o faz sentir realizado e feliz.

É possível anular completamente a tristeza? Penso que não. A maior auto-consciência não anula a tristeza de sentir que, com certas figuras significativas, o sujeito não consegue ter uma relação de intimidade, confiança e desenvolvimento. Mas aceita-se a realidade. Não é possível. E, por isso, talvez se sofra menos. Diminui a culpa. Aumenta a esperança na procura de novos parceiros de desenvolvimento.

O ódio na Depressão


por Catarina Nascimento Rodrigues
Publicado originalmente no Jornal Público de 25 de Maio de 2017 



Na minha escuta psicoterapêutica, encontro muitas vezes, nas palavras dos meus pacientes, profunda solidão. Mesmo que, na sua vida, se encontrem rodeados de pessoas, incluindo pessoas significativas. Solidão consequência de se sentirem desamparados, sós face às suas necessidades emocionais. Não estou, pois, a falar da solidão essencial, na medida em que estamos sempre irremediavelmente connosco próprios, mas sós no sentido de procurarmos um outro e não encontrarmos ressonância emocional para as nossas necessidades emocionais. O sujeito não se sente prioridade na mente do outro, nem nela sente ter lugar de valor e de orgulho… ou não sente no outro a desejada empatia e vontade de despender tempo emocional e/ou físico na tentativa de compreensão do seu sofrimento ou compartilhar a sua alegria.

Esse lugar de acolhimento, empatia, amor, privilégio, orgulho por parte do outro, nomeadamente de um outro significativo, é a grande procura da vida/mente humana. Porque sabemos intimamente que é nesse lugar que nos sentimos bem, nos expandimos e nos superamos a nós próprios. Como já aludi em artigos anteriores, o entusiasmo do outro, o seu carinho/afecto e o seu orgulho por nós funciona como poderoso trampolim para o desenvolvimento.

Os outros resultam, pois, de uma procura. Aliás, desde que nascemos que nos procuramos ligar ao outro, física e, sobretudo, emocionalmente. A ligação emocional é alimento da alma. Ela dá ânimo, esperança, tranquilidade, segurança para enfrentarmos os desafios da nossa vida. Confere-nos instrumentos para voltarmos a ser nós próprios depois das tempestades por que todos passamos na vida.

A relação amante é, pois, profundamente interessada, persistente e criativa. Faz-nos expandir e desenvolver. Na sua ausência, fica a frustração e a angústia de uma necessidade emocional não acolhida. E gera-se o terreno fértil para a emergência do Ódio - em relação ao outro, que não corresponde, e a si próprio, que é tão mau ou insuficiente que não merece o amor/resposta do outro.

As vozes críticas internas, numa mente emocionalmente só e que se sente sem ou com pouco valor para os outros, encontram terreno fértil para se expandirem e tornarem-se dominantes. Arrasam tudo. Divertem-se a humilhar e a aniquilar o sujeito. Todos os actos e comportamentos são vistos numa perspectiva de desvalor e de crítica. Por vezes, a crítica interna é tão forte que o sujeito sente vontade de se bater, fazer-se mal. O ódio e o desprezo em relação a si mesmo são arrasadores. E muito difíceis de travar. O lado amante de si mesmo não tem força contra estes impulsos destruidores. Ou seja, o sujeito pode ter consciência destes pensamentos auto-destrutivos, auto-castigadores, mas não conseguir impedi-los. Na realidade, não tem amor próprio onde se agarrar… Acredita e sente-se merecedor de tal humilhação.

A vergonha que aparece depois da tempestade de ódio contra si mesmos é também ela avassaladora. Depois do desprezo/desespero fica o sentimento de solidão profunda e de desesperança.

Não é fácil procurar ajuda nesta fase. A vergonha e o desprezo são tão intensos que por vezes sobrepõe-se a necessidade de se fechar sobre si mesmo… Na melhor das hipóteses, este fechar-se em si próprio constitui-se como um caminho interior e pessoal, ainda que muito doloroso e desgastante emocionalmente, na procura de ajudar-se a si mesmo, perscrutando o que se passa emocionalmente consigo. Há coisas que provavelmente só contamos a nós próprios. Essa possibilidade de uma relação absolutamente honesta e transparente connosco pode ser dura… mas é também parte do caminho.
Mas é impossível fazer todo o caminho sozinho. Para que não vença o ódio, é preciso um outro capaz de nos amar a quem nos possamos ligar e a quem possamos depositar os nossos pensamentos desorganizados, os nossos sentimentos perturbadores, o nosso ódio em relação a nós próprios e ao mundo… e que não fique contaminado com essas emoções. Mantenha a esperança e o amor por nós. Essa é a função do terapeuta.

26/01/2016

Amar

Amar

Publicado originalmente com o título "O amor do outro como trampolim" no Jornal Público, em Dezembro de 2014

Catarina Rodrigues
Psicoterapeuta

“Foi muito importante para mim poder exprimir o ódio e a descrença que sentia, mesmo em relação à terapia e a si. Senti que você aceitou esta expressão e, ao invés de se assustar e se sentir muito posta em causa, como acontecia com a minha mãe, ou não saber o que fazer comigo e achar que eu estava a exagerar, como aconteceu com o meu pai, você aceitou esse ódio como uma parte natural do meu percurso pessoal. Eu preciso odiar. Preciso queixar-me de tudo e de todos… para depois renascer eu. Só espero consegui-lo. O meu medo é ficar encerrada neste ódio para sempre. Ou ficar sempre a viver nesta oscilação emocional, que me esgota e me faz concretizar menos do que eu queria e tenho capacidade.
“Eu percebo que, para sair daqui onde estou, preciso perceber intimamente que a minha vida só depende de mim, da minha apreciação de mim e da minha energia para concretizar os meus projectos. Mas, para isso, eu preciso tolerar os meus fracassos, as minhas angústias e não me deixar abater por eles e vê-los como a totalidade de mim. São uma parte de mim e são também uma parte dos outros. São uma fase, um momento. E a raiva e o ódio são a expressão no limite da frustração que tais situações me provocam. É essa frustração que não posso deixar que me bloqueie e tome conta de mim. Por isso pensei: e se eu, ao invés de fazer braço de ferro ou me isolar em relação ao meu marido, ou aos meus filhos, ou aos meus pais, ou aos meus amigos, quando as coisas correm mal, diferente do que eu desejava, e se eu, logo que as minhas emoções me deixarem, estabelecesse uma ponte afectiva para eles? Isto é, comunicasse com eles sobre os meus sentimentos, mas sem rancor, sem amuo. Não estou com isto a dizer que não vou viver a raiva e a frustração. São naturais. Assim como o é a frustração dos nossos desejos e vontades. Mas de que vale manter-me amuada à espera que venham dar-me mimo, soluções para a minha vida ou dizer que eu tenho muita razão? Provavelmente não tenho e estou a reagir sem maturidade. Fazer as pazes, sair do encerramento em mim própria e criar pontes para chegar aos outros é fundamental.
“Ninguém tem a razão total. Eu tenho-me alimentado de ressentimento e desejos de abandono e rejeição. O que só tem feito com que me sinta cada vez mais afastada e sem tolerância para quem me rodeia. Essas pessoas não têm o direito de errar, de frustrar-me, pergunto eu? E face a isso amuo ou transformo e reivindico? Eu sei que é mais fácil falar do que fazer, mas alimentar este ressentimento e ilusão de que só noutra relação serei verdadeiramente feliz não me tem levado a lado nenhum.
“Na relação que os meus pais tiveram comigo, não me souberam ajudar a construir instrumentos nem a sentir-me competente para gerir dentro de mim os sentimentos de raiva e frustração. E eles tornaram-se tremendamente poderosos. Mas eu também não consegui aproveitar outras relações para esta aprendizagem. Continuei à espera dessa aprendizagem e dessa conquista na relação com os meus pais. Mas agora, isso tem menos importância. Terei de fazer esse caminho por mim própria. E através de outras relações. Descobrir o que eu acho ser o melhor para mim e não perder tanto tempo a queixar-me/ficar ressentida com a falha do cuidado do outro. Se o outro cuidou mal de mim, cabe-me dizer-lho e, e sobretudo, cuidar eu de mim. Amar-me e talvez assim amar mais os outros… E, porque amor gera amor, ser assim também melhor amada pelos outros.”
Não é fácil sair da espiral de ressentimento, ódio e encerramento em si mesmo. Cada um tem o seu ritmo. Uma relação de amor, terapêutica e/ou outra, ajuda, mas não cura só pelo facto de existir. O amor do outro funciona como base e trampolim. Funciona como um acolhimento seguro face às tempestades internas de cada um. É essencial, sem dúvida, mas, em meu entender, o que verdadeiramente é transformador é o percurso do próprio no sentido de se amar e assumir a inevitabilidade de ser o agente da sua vida.

Não consigo sair daqui

Não consigo sair daqui!

Publicado originalmente no Jornal Público, em Dezembro de 2014

Catarina Rodrigues
Psicoterapeuta


Apresento hoje o primeiro de dois artigos que, através de um relato imaginário de uma paciente numa sessão, pretendem ilustrar as questões do ódio e da dependência e a possibilidade de amar e conquistar a capacidade de ser-se agente da sua própria vida.
“Não consigo sair daqui. Não consigo deixar de ser quem sou, agir deste modo estúpido e amuado, rancoroso e exigente. Penso que já estou melhor e volto ao mesmo. Uma contrariedade, um sentimento de não ser ajudada, de não pensarem em mim, de não estarem comigo, de não me respeitarem, de não me ligarem, de não me darem atenção… no fundo, de não me sentir amada pelas pessoas que me são significativas. Sim, é isso, eu não consigo controlar este sentimento de não me sentir amada cada vez que acontece algo que sai fora do que estou à espera. Algo que me faz sentir rejeitada, excluída, fora da atenção do outro, fora do cuidado do outro ou incompetente. Eu não consigo controlar o meu rancor, o meu ressentimento, a minha angústia. Mesmo que a razão me diga que estou a exagerar, que não é preciso dar toda aquela dimensão, que tudo se resolvia se eu conseguisse desdramatizar e reivindicar sem estes sentimentos de ressentimento e de amuo. Nem imagina como me fico a sentir humilhada e infantilizada. E face a isso, só posso continuar com o amuo, com o mal-humor, com as queixas e as acusações, de maneira a ver se o outro me pede desculpa e eu volto a sentir algum amor próprio. Entende? Se o outro não me dá razão, a parte de mim que acha que eu estou a ser uma infantil, uma palerma apodera-se de mim toda… e eu sinto-me um lixo e acho que não valho nada e que nunca vou conseguir ser feliz e fazer os outros à minha volta felizes. E fico a odiar essa pessoa. Só me apetece é abandoná-la, magoá-la… agarrando-me à ideia, que não sei se é ilusão ou não, de que sem ela eu seria mais feliz e poderia encontrar alguém que me compreendesse melhor e me fizesse sentir melhor.
“Mas penso agora que talvez o problema seja também meu. Que a insatisfação e a humilhação residam em mim… e sejam reactivadas na relação com os outros. Penso no meu passado e vejo que fui assim sempre… com todos… e aprendi a sê-lo tão cedo quanto na minha infância, com a minha mãe e o meu pai, onde me sentia excluída, com falta de atenção e sozinha com as minhas emoções. Eu era assim com pais, amigos e namorados. Eu sou assim. Não consigo deixar de ser assim… e não creio que a psicoterapia me possa ajudar. Deixei de acreditar. De que me serve pensar nisto? Eu não consigo sair de dentro de mim. Eu não consigo deixar de ser quem sou… e isso faz-me sentir humilhada, esmagada, infeliz e com raiva e ódio de todos. Até de si, que não me pode ajudar. Mas sobretudo de mim. Ódio de mim, pois percebo que era só levar as coisas menos a sério, relacionar-me com mais as pessoas, não ficar rancorosa, não ser tão crítica de mim e dos outros, abraçar outros projectos. Relativizar. Amar.”
Mas como amar quando se sente tanto ódio, tanta humilhação?
Quando existe uma boa relação, terapêutica e/ou outra, persiste o amor e a paciência. Em tais relações de amor, aceita-se o ódio, mas coloca-se limites à agressividade, sem retaliar no amor, o que ajuda a tomar consciência, a diminuir a culpa e a super-exigência internas.
Há marcas das relações precoces significativas que são lentas a desfazer. A relação terapêutica permite a expressão e a vivência de afectos tão fortes quanto o ódio e a desesperança, sem retaliação, sem perda de afecto e mantendo a esperança. O amor do terapeuta pelo seu paciente, pelo novo estilo relacional que estabelece, actua como um contrapeso ao ódio e à destruição internas. Só o amor permite criar sentido na vida. Alimenta o sonho-projecto. Mantém vivas as partes do paciente que são positivas e lança iluminação sobre novos caminhos. Mantém viva a ideia de que é possível a concretização pessoal e a construção de um projecto de vida que o próprio ame. 

Só a Psicanálise não chega

Só a Psicanálise não chega


Publicado originalmente no Jornal Público em Novembro de 2014

Catarina Rodrigues
Psicoterapeuta

O impacto do estilo relacional parental na construção da identidade e personalidade dos filhos pode constituir-se como uma marca de um passado irrelembrável, no sentido de não consciente porque não pensável ou elaborável pela mente imatura do bebé. Porém, é indesmentível e inesquecível, matriz do estilo relacional (próximo, seguro, espontâneo, livre, confiante, amante… ou o contrário) que os filhos estabelecem (em resposta) com os seus pais… e depois com o mundo que os rodeia.
Tal irrelembrável e inesquecível (como tão bem o caracterizou Miguel Mealha Estrada) perturba a vida do sujeito, limitando a liberdade, a espontaneidade e a iniciativa. Interfere com a capacidade de ser de forma confiante, audaz e sonhadora na vida. Medos, angústias, desesperança não encontram transformação criativa e resiliente.
A Psicanálise, se proporcionando um estilo relacional complementar, concorre para uma expansão do “eu”. A análise de si mesmo e da sua história como foi vivida emocionalmente pelo próprio possibilita a tomada de consciência do desenvolvimento que ficou em suspenso e compreender a raiz da fragilidade, do medo, da dependência e da imaturidade.
Cabe ao analista ajudar a re-situar a pessoa na sua vida, trabalhando em “dupla hélice - repetição e inovação, transferência e nova relação”, segundo Coimbra de Matos, que acrescenta: “A primeira desenvolve-se em espiral redutora, reforçando a adaptação patológica – é iatrogénica; a segunda, em espiral expansiva – e é terapêutica. A primeira interpreta-se para a dissolver – análise da transferência; a segunda gere-se para a expandir e generalizar – desenvolvimento e transferência da nova relação”.
Em meu entender, tal expansão e generalização são possíveis porque a pessoa reconhece o entusiasmo e a confiança do analista pela sua vida (e pela vida em geral). Veiculado de forma clara e genuína, este entusiasmo resgata o sujeito da sua solidão e dos seus medos, incentivando-o a ir além da sua zona de (des)conforto e reconquistar o seu lugar na vida. Psicanálise relacional, talvez ainda a caminho de ser verdadeiramente relacional, onde a certeza do interesse e do entusiasmo do analista pela pessoa é o principal factor de saúde, colmatando a falha inicial.
Porém, a retoma do desenvolvimento não se processa se encerrada na relação psicanalítica. Só a psicanálise não chega. A psicanálise lança as bases da compreensão do próprio e do meio relacional que o rodeia para que a transformação possa ocorrer. A transformação ocorre na vida, no vivido emocional na relação com os outros que se vão tornando significativos. É necessário que exista uma boa aliança entre o impulso para o exterior motivado pelo analista e a coragem do analisando para se colocar em movimento na vida.
Quando tal sucede, o sujeito sente-se mais capaz para se assumir como responsável pela sua vida. É reconhecido e reconhece-se como suficientemente competente para criar e escolher os caminhos que intui serem os melhores para si, aqueles que vão ao encontro da sua realização pessoal. Compreende que permanecer dependente da energia, do interesse e das capacidades de um outro (mesmo que esse outro seja o analista), é persistir num estilo relacional assente na dependência e na desvalorização/inferiorização de si mesmo. Elegendo-se a si mesmo como responsável pela sua vida, caminha para além da precoce necessidade parental insatisfeita.
Neste caminho, há sucessos e fracassos. Não há outra forma de aprender. Tem de estar preparado para as investidas da culpa, da desvalorização e da crítica… sobretudo internas. Mas se a esperança em si o nortear… permanece em movimento na sua vida! Porque a vida, como diz Coimbra de Matos, “é, essencialmente, construção de novidade (…); é, sobretudo, desenvolvimento pessoal e social – este desígnio é o que verdadeiramente motiva o Homem; sem ele, não há vida afectiva, esperança, alegria e felicidade – só passagem do tempo”.

Ajudar no Isolamento Infantil

Ajudar no Isolamento Infantil

Publicado originalmente no Jornal Público

Catarina Rodrigues
Catarina.nasc.rodrigues@gmail.com

Em primeiro lugar, analise se os comportamentos de isolamento do seu filho são recentes e circunstanciais (relacionando-se com um acontecimento identificável) ou se se confundem com a personalidade e história de vida do seu filho (ele sempre mostrou uma tendência para se isolar e se fechar e dificuldade em gerir as frustrações).
Em segundo lugar, faça uma análise sincera e veja como as dificuldades do seu filho se inserem na dinâmica da família. Estará a acontecer alguma coisa na família que possa ser confuso, angustiante ou difícil de gerir para o seu filho? Divórcio dos pais, desemprego, morte, doença grave, conflito entre os pais, conflito pais-filho, conflitos na escola, entre outros. E tal situação é recente ou já sucede há muito tempo? E como é que a gerem com o vosso filho? E entre vocês?
Em terceiro lugar, analise a sua personalidade e as suas próprias dificuldades sociais. É provável que encontre um fio condutor com a personalidade do seu filho.
Se não se sentir capaz de abordar ou de encontrar soluções que auxiliem o seu filho, porque são questões com que também se debateu e que ainda o marcam, ou porque os comportamentos de isolamento e retraimento do seu filho o irritam ou dececionam, lembre-se que pode sempre procurar ajuda no exterior, seja num psicólogo seja num amigo próximo que possa ter uma visão e uma experiência de vida diferentes das suas. O interesse de alguém de fora, com uma ligação emocional significativa e a quem a criança reconhece competências que não reconhece nos pais, pode fazer a diferença. Muitas vezes, há professores ou amigos que, detetando que algo não está bem, procuram ajudar. Espontaneamente, vão atrás da criança, não a deixam isolar-se e convidam-na para situações de integração social. Com carinho e mantendo-se na retaguarda enquanto a criança desta precisa.
E esta é, quanto a mim, a melhor estratégia: não compactuar com a tendência ao isolamento, nem arranjar quaisquer justificações para ela (seja na personalidade, seja nas vivências da criança). Isolar-se de forma constante e persistente, evitando o contato social, não é um comportamento normal. Ponto final. E a melhor ajuda que podemos dar é fazer a criança a sentir-se integrada/amada, competente/interessante. Estas crianças querem ser resgatadas do seu isolamento. Não o procuram por prazer, mas devido ao seu sofrimento. O isolamento traduz o facto de terem chegado a um beco sem saída.
Fale com carinho e sem culpa com o seu filho sobre esta sua tendência e procure ver como é que ele a entende dentro de si mesmo. E depois, faça-lhe ver que o isolamento nada resolve, até agrava o sentimento interior de mal-estar, como ele próprio o sabe. E incentive-o a procurar amigos com que goste de conversar e de brincar e a integrar-se nas brincadeiras, mesmo que sinta que as coisas não correm bem de início. Todos temos o nosso ritmo e o mais natural é que, se não desistirmos, a sintonia emerja.
E em quaisquer situações em que esteja com o seu filho, não feche os olhos quando repara que ele se está a isolar. Ajude-o a integrar-se, mas sem grande alarido. Aproveite a oportunidade para conversar com ele, por exemplo sobre algo que ele gosta de falar ou sobre alguma situação divertida porque passaram ou que estão a ver. Falar sobre as dificuldades dele pode ser contraproducente. É mais importante focar algo de que ele goste e que sirva de desbloqueador do retraimento. Em situação social, incentive a conversa ou brincadeira com as pessoas de quem ele gosta. E gradualmente vá deixando de participar na conversa ou na brincadeira, à medida que o vê mais à-vontade. Demonstre o seu orgulho nos seus progressos. A confirmação e o estímulo ao desenvolvimento de novas competências, associada ao reconhecimento, ao entusiasmo e à crença inequívoca da capacidade do seu filho em transformar a situação, são o primeiro passo para a refundação de um novo estilo relacional assente na confiança.

Isolamento Infantil

Isolamento Infantil

Publicado originalmente no Jornal Público 

Catarina Rodrigues
Catarina.nasc.rodrigues@gmail.com

Não é raro conhecermos uma criança que se isola no recreio, que se retrai no contacto com os outros meninos, que fica muito calada na sala, quase passando despercebida, e que não mantém o contacto olhos nos olhos prolongado. São crianças que podem ser alvo de troça, ou de bullying, ou de evitamento por parte dos outros meninos (por exemplo, não são convidadas para as festas de aniversário dos colegas ou são deixadas de parte nas brincadeiras do recreio). Normalmente, são crianças que preferem o contacto com o adulto, a quem sentem como securizante. São crianças com pouca voz, pouca presença, pouco carisma. Em duas palavras, são crianças sobretudo inseguras e sós. Nem sempre os pais destas crianças as trazem ao psicólogo, encontrando justificações na personalidade dos seus filhos, ou numa fase de desenvolvimento que estarão, supostamente, a passar, ou identificando-se a eles (“eu também era assim”). Porém, em meu entender, o isolamento social é sempre um sinal preocupante. Somos seres de relação e é na nela que encontramos prazer, dinamismo, desafio e crescimento/expansão.
O desenvolvimento infantil desejavelmente ocorre no sentido positivo e expansivo: em termos da expressão da vontade e das capacidades próprias; do reconhecimento das competências sociais, descobrindo no outro um parceiro de brincadeira e de descoberta; de desejo de explorar o meio que o rodeia, humano e físico. Quando a criança se sente alegre, segura e confiante, o mundo está ao seu alcance para ser descoberto e é-lhe natural transformar as dificuldades em desafios para ultrapassar. Tem mais capacidade para gerir as diferenças e os temperamentos das outras crianças. Não se isola; transforma. Não se assusta perante a dessintonia relacional e trabalha ativamente no sentido de alcançar nova sintonia.
Quando uma criança se isola é porque sente dificuldade em gerir as exigências emocionais que a relação com os outros lhe coloca. Isso pode acontecer por muitas razões, mas percebemos de antemão que a sua auto-estima está fragilizada e que tem um estilo inseguro e evitante de lidar com os outros. Isola-se e evita porque sente que a relação com o outro é de uma exigência emocional à qual não consegue dar a resposta satisfatória – não consegue sentir-se competente na sua capacidade de ser interessante e gostada pelo outro. Sente-se falhada e aquém. Sente-se diminuída e inferiorizada.
A criança procura proteger-se emocionalmente da deceção e da humilhação sentidas no confronto direto com a qualidade dinâmica das relações (têm altos e baixos) e face à tomada de consciência da sua inabilidade. Efetivamente, fraca resiliência emocional faz com que a criança sinta de forma muito intensa e profunda as dessintonias na relação com os outros. Não são vividas como parte do processo/vida (onde sempre existe uma oscilação entre sintonia e dessintonia, até se criarem novas sintonias), mas como falhanço pessoal e relacional, corroborando internamente a crença no seu fraco valor e competência para gerir os desafios e as frustrações nas relações com os outros.
À deceção geralmente está associada a zanga face a si mesmo e ao outro, muitas vezes inconsciente, que faz com estas crianças tenham um sentido crítico (culpa) em relação a si mesmas, mas também em relação aos outros, destruidor, dificultando a emergência de uma perspetiva mais construtiva (ao invés de destrutiva) e de estratégias de gestão das relações mais criativas e plásticas.
Da minha prática clínica, estas dificuldades manifestam uma intricada ligação entre características genéticas (introversão) e estilo relacional inseguro e evitante desenvolvido na relação de vinculação com as figuras precoces significativas (que provavelmente também apresentam um estilo maioritariamente inseguro e evitante de relação), beneficiando de um trabalho psicoterapêutico assente no entusiasmo pelo estímulo das competências que ficaram em suspenso no desenvolvimento do sujeito.

18/11/2013

Direito a ter vontade própria - I

Catarina Rodrigues

(Jornal Público, 27 de Outubro de 2013)



Uma das coisas que considero mais difícil de atribuir aos bebés (e às crianças em geral) é a vontade própria – ou seja, o desejo de que as coisas sejam como querem. De um modo geral, os comportamentos do bebé (de recém-nascido aos 2 anos) que expressam a sua vontade são interpretados como mimo (no sentido pejorativo, isto é, de bebé mimado), manha, birra ou génio… Sobretudo se estiverem associados a comportamentos agressivos, como gritar, bater, chorar. Quando um bebé manifesta veementemente “eu quero” ou “não” gera, muitas vezes, nos cuidadores respostas de surpresa, indiferença, contrariar (considerado “pôr limites”) ou castigar (considerado educação).

Vontade própria é algo que se atribui aos adultos, considerados pessoas com maturidade suficiente para tomar decisões. É certo que os bebés são pessoas em amadurecimento, mas eu julgo que esta caracterização está assente no negativo (na imaturidade dos bebés) e não no positivo, isto é, nas suas competências de expressão do seu desconforto e bem-estar e nas competências relacionais e de aprendizagem.

Tal caracterização pelo negativo encontra-se muitas vezes na base da actuação autoritária e sem questionamentos do adulto («Fazes assim porque eu é que sou o adulto e eu é que mando»; «Ele está a gritar porque não quer vir embora. Pega-se nele com força e dá-se uma palmada “pedagógica”. Tem de perceber que quando eu digo que é para vir embora, é mesmo. Tem de aprender que quem manda sou eu, senão nunca mais tenho mão nele») e alimenta projecções do adulto em relação ao comportamento do bebé («Ele está chorar e a pedir colo. Está muito mimado. O melhor é não dar atenção, para que aprenda a ser mais independente e  não o habituar a que se chorar tem tudo o que quer»).

Contudo, questiono-me porque é que: primeiro, o comportamento espontâneo do bebé não é entendido como expressão da sua vontade, à luz da sua maturidade e, como tal, passível de aceitação; segundo, a vontade não é vista como uma competência precoce e que amadurece associada às respostas complementares e amantes dos cuidadores; terceiro, porque é que corresponder ao comportamento espontâneo do bebé é visto numa linha contrária à educação; e, finalmente, porque é que educar é controlar e limitar e não de negociar, tolerar a agressividade do outro, ter paciência, ouvir e cooperar.

Ou seja, porque é que, dentro da sua maturidade, o bebé não é visto como alguém essencialmente competente? Competente na leitura que faz das suas necessidades biológicas, na procura de se fazer entender face ao seu mundo relacional, de entender o mundo humano e físico que o rodeia, questionando-o através da exploração, e com uma capacidade de aprendizagem espantosa e provavelmente inegualável ao longo da sua vida.

Parece que os adultos “sabem” melhor o que é que os bebés estão a pedir do que eles próprios. E isso é tanto mais frequente quanto mais pequenos são. Nem sempre é dada grande credibilidade à leitura que o próprio faz das suas necessidades e vontades. Neste sentido, não é raro ouvirmos: «É um bebé, não sabe o que quer ou o que tem» ou «É um bebé não tem querer».

Reflectindo sobre estas questões, penso que tal acontece porque, quando o bebé é muito pequenino, nem sempre é facil empatizar e compreender a sua linguagem/comunicação e isso gera ansiedade nos pais, que a podem tentar controlar... controlando o comportamento do seu filho. Acresce que alguns pais rejeitam ou perderam o contacto com o seu lado infantil e têm maior dificuldade em “olhar” o seu bebé numa perspectiva “infantil” . Depois, existe uma dificuldade dominante nos adultos em saber tolerar e reagir de forma positiva aos comportamentos agressivos nos bebés e nas crianças, sentidos imediatamente como negativos e a controlar, e não como expressão natural e espontânea da frustração, que a meu ver deve levar a uma negociação de vontades... e não a uma imposição de uma vontade (geralmente a do adulto). 

25/01/2011

Consulta de Psicologia - Encontro do Bem-Estar Mental e Físico

por Rosa Pires e Catarina Rodrigues



Reconhecer o sofrimento é o primeiro passo para pedir ajuda.


A relação terapêutica nasce no trabalho conjunto entre paciente e terapeuta, na qual o acolhimento da dor, a compaixão, a empatia e uma visão clara da causa do sofrimento permite compreender, ultrapassar e desenvolver as estratégias necessárias para lidar, de forma diferente, com o que nos perturba.

Quando se assiste a um encontro feliz entre paciente e terapeuta, a relação terapêutica tem um carácter único de intimidade e de confiança, sobretudo de interesse e de afectos genuínos… que solidificam essa relação e propiciam a expansão da pessoa. Esse é o grande objectivo! Redescobrir a vontade de explorar o mundo sem medo, resiliente, reconhecendo a Vida como Mudança e Dinamismo.

Numa óptica de promoção do bem-estar e qualidade de vida e da prevenção de situações emocionais de risco, disponibilizamos os serviços de apoio psicológico e psicoterapia desde a concepção até aos cuidados à 3ª idade.

A Relação Terapêutica e o Sentimento de Dependência

por Catarina Rodrigues

Não é raro a psicoterapia e o sentimento de dependência estarem associados nos medos de quem procura (ou pensa procurar) a consulta de psicologia/psicoterapia. Alude-se a um receio de que a pessoa deixe de ser capaz de pensar ou de agir por si própria, uma vez que ficaria sob a influência do psicólogo. Talvez por ser psicóloga, interrogo-me muitas vezes do porquê desta associação.


Com efeito, quando se assiste a um encontro feliz entre paciente e terapeuta, a relação terapêutica tem um carácter único de intimidade e de confiança, sobretudo de interesse e de afectos genuínos… que solidificam a relação, uma vez que não são sentimentos unilaterais, mas partilhados por ambos os parceiros da viagem terapêutica.


E em que outro estilo de relação seria possível falar-se de assuntos tão íntimos? É necessário sentir o afecto e a inabalável esperança do terapeuta na capacidade de crescimento mental/afectivo/social do paciente.


Assim sendo, deixa de fazer sentido falar de dependência, mas antes de trampolim confiante e confiável, resiliente e promotor de resiliência para a vida. O projecto de vida vai-se desnudando ao longo do processo terapêutico, à medida que a honestidade passa a ser a essência desta nova relação.


Por tudo isto, não posso negar que aquilo que o terapeuta diz – essencialmente devido ao seu carácter afectivo – é da maior importância para o paciente. É verdade que, em alguns processos terapêuticos, e em algumas fases da terapia, a pessoa pode sentir que não quer tomar decisões sem falar com o seu terapeuta. Contudo, isso parece-me ter menos a ver com a dependência do que com o sentimento de confiança no terapeuta que se interessa, que compreende e que ajuda a pensar.


À medida que o processo terapêutico progride, a pessoa começa a adoptar um estilo de pensamento e de actuação mais de acordo/honesto consigo própria – um estilo que se vai desvelando na terapia. Neste sentido, poderíamos falar, creio eu, num segundo nascimento!


(Adaptado do artigo de Catarina Rodrigues: «O sentimento de dependência e a psicoterapia», publicado na Revista da Junta de Freguesia da Charneca de Caparica, nº 9, Dez. de 2004)