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26/01/2016

Lidar com a agressividade e a frustração do seu filho - II

Lidar com a agressividade e a frustração do seu filho - II


Publicado originalmente no Jornal Público, em Fevereiro de 2014

Catarina Rodrigues
Psicoterapeuta


Na aprendizagem da gestão da zanga e da frustração, o principal papel dos pais é: por um lado, dar significado ao comportamento da criança: “Eu percebo que estejas chateado e zangado. Eu percebi que estavas a fazer uma coisa gira, mas agora temos de ir mesmo tomar banho, porque temos de ir jantar. Além disso, podemos ir brincar logo a seguir”; e, por outro, ajudá-la a contê-lo e a dirigi-lo de forma mais correcta: “Não podes bater nos pais, porque os pais também não te batem. Nem deves bater em ti mesmo. Eu não quero que o faças. Estás zangado, eu já percebi. Todos nós nos zangamos. Mas tens de te acalmar e explicar o que se passa. Se continuas assim, eu não consigo perceber e não te consigo ajudar melhor. Calma”.
A contenção física com amor nestas situações é importante: faz com que a criança se sinta segura e amada. O toque tem o poder de acalmar e esse é o primeiro passo a fazer com a criança. Não o deixe sozinho com a sua fúria. Aliás, se o coloca no chão ou na cama (mesmo que seja porque ele estava a contorcer-se para ir para aí) ou o entrega ao outro pai e vai-se embora, o choro e a zanga aumentam. Ele sente-se descontrolado e não sabe o que fazer. Precisa de si, de sentir que não o abandonou, que o está a tentar acalmar e que lhe permite viver a zanga na segurança do seu colo.
Para isso, tem de estar calmo e gerir dentro de si as emoções fortes que tal situação provoca. Efectivamente, a zanga da criança provoca em nós mesmos zanga e fúria. Espelha o que ela projecta em nós. Sentir raiva, desespero, fúria é natural nesses momentos. Somos humanos e sentimos a agressividade que nos está a ser dirigida naquele momento… mesmo que seja do nosso filho. Contudo, cabe-nos a nós gerir essa agressividade e frustração. Não é fácil, mas é possível.
Em primeiro lugar, é importante perceber que a fúria que sentimos não é nossa. Traduz o estado de alma do nosso filho. É ele que está descontrolado, furioso e frustrado. Nós estamos ao seu lado para o ajudar a lidar com tais emoções. Para isso, temos de perceber que este estado passa, mas que demora algum tempo. É como um carro que acelerou ao máximo. Não desacelera num segundo. Temos de lhe dar tempo e ir desacelerando aos poucos. Também não vale a pena descontrolarmo-nos e batermos no carro ou gritarmos com ele. Não adianta de nada e só faz com que nos sintamos ainda mais irritados e impotentes… e o carro continue descontrolado.
Em segundo lugar, evite a auto-centração: o seu filho não está contra si, nem a desobedecer-lhe; está descontrolado e a aprender a gerir as suas emoções… consigo.
Por isso, acalme-se. Respire fundo e reconheça que este momento vai passar e que você vai ajudar, mas primeiro é preciso que haja uma alteração do estado de espírito de ambos. Faça algo que diminua a tensão. Ande com o seu filho para outra divisão da casa. Fale baixinho, explicando que ele está zangado, mas que se vai acalmar. Ou fale de algo que ele goste. Ou não diga nada e abrace-o. À medida que você mesmo se acalma, o seu tónus muscular também relaxa e você volta a sentir ternura pelo seu filho e a conseguir perspectivar a situação do ponto de vista dele: é ele que está zangado, não é você. E tudo isso contribui para tranquilizar o seu filho.
Quando ele voltar a estar calmo e alegre, você que pode retomar a conversa em suspenso: a ida para o banho. E faça-o de forma tranquila. Não receie nova fúria. Normalmente, o seu filho gosta. Só que às vezes, enerva-se, porque fica frustrado. Está a aprender consigo que a frustração pode ser transformada e que nos podemos voltar a sentir bem… e que não perdemos o amor do outro nessas situações.
Finda a situação, e o banho tomado, é o momento da aprendizagem. Fale da situação com tranquilidade: percebeu que ele estava mesmo zangado, mas que ele já sabe que àquela hora tem de tomar banho. E que, como os crescidos, não deve bater, pode explicar.

Lidar com a agressividade e a frustração do seu filho - I

Lidar com a agressividade e a frustração do seu filho - I

Publicado originalmente no Jornal Público, em Fevereiro de 2014

Catarina Rodrigues
Psicoterapeuta
A partir dos 18 meses do seu bebé, muitos são os pais que se queixam de “birras” terríveis quando se diz “não” ao bebé, ou choro dilacerante quando se vai dar banho ou quando é para sair do banho ou é para vestir ou despir, etc., etc. É-vos familiar este cenário? Provavelmente, até esta altura, apesar de algumas manifestações veementes de vontade do vosso filho, tinham conseguido, sem grande “drama”, transformar a situação que desencadeava o seu “não” num “sim a dois”, puxando pela vossa criatividade e entusiasmo para incluir o vosso filho na decisão (estimulando-o para ir buscar os bonecos preferidos ou colocar a espuma na água).
Contudo, de repente, sem razão aparente, e sem que vocês tivessem mudado a vossa conduta, as palavras doces, o levar os brinquedos para o banho, deixar o bebé colocar o creme depois do banho em colaboração convosco, tudo isso deixou de funcionar… pelo menos, numa parte das vezes… e apareceram choro e gritos e levantar das mãos e bater dos pés, em que parece que nada funciona: nem palavras calmas; nem agarrar o bebé firmemente contra o peito e falar calmamente; nem falar em tom zangado, o que, aliás, parece até potenciar um choro mais forte; nem dizer com voz clara e firme: “Tens de te acalmar, é só ir para o banho, costumas gostar, a mãe vai levar os teus brinquedos como de costume”. Nada. Pelo menos, nada disto funciona de imediato nas primeiras vezes…
É natural que, num primeiro impacto, sobretudo se for um primeiro filho, se questionem sobre o que se está a passar, o que estão a fazer de menos bem, ou como hão-de lidar com tal agressividade que é projectada para vocês… e que também gera em vós zanga e frustração… e desespero. Mas, calma, nada que a paciência e a firmeza dos pais não consigam ajudar a criança a modular… e a crescer.
O modo como sinto, observo e entendo tais comportamentos leva-me a pensá-los como expressão da contrariedade e da zanga face à frustração. Ou seja, em palavras mais claras, como um: “Eu não quero e estou furioso por me estares a impedir de fazer o que eu estava a fazer para me levares para o banho… que, neste momento, eu detesto”. Noutras situações, a zanga aparece sem que se consiga perceber ao que está associada. A criança parece descontrolada aparentemente sem razão. Mas pode, por exemplo, estar mais sensível porque está doente ou iniciou a creche ou os pais andam tensos.
A família entrou numa nova etapa do desenvolvimento: lidar com a frustração e a agressividade! Palavras-chave: paciência e coerência.
Da óptica do bebé, levantar a mão aos pais, chorar e gritar desalmadamente, bater com os pés no chão são comportamentos que manifestam a zanga. Não são desautorizações face aos pais, nem um indício de perda de controlo destes sobre os filhos, nem que estes vão crescer como marginais que batem nos pais. Nesta etapa do desenvolvimento, são comportamentos espontâneos. Ninguém precisa ensinar uma criança a bater para que o comportamento de levantar a mão surja quando está mesmo zangada… e dirigido seja a quem for. É dessa forma que ela manifesta o quanto está furiosa e não quer aquela situação.
Tais comportamentos não devem realçados pelo adulto e base para uma leitura negativa da personalidade do filho (“És mau”) ou culpa e ameaça à continuidade do amor (“Se continuas a fazer isso, a mãe deixa de gostar de ti”). Afinal, é bom que saibamos expressar a zanga, mas temos de aprender como a modular. E isso aprende-se, primeiro, na família: «Não podes bater no pai e na mãe. Os pais ficam zangados contigo. Os pais também não te batem. Eu entendo que estejas zangado, mas tens mesmo de ir para o banho. Vamos procurar fazer isto o melhor possível os três, mas tens de ajudar os pais”.
Aprender a gerir a agressividade (emoção básica) é a nova etapa no amadurecimento da criança, que requer novas estratégias por parte de todos, que, com amor e paciência, vão descobrir. 

17/02/2014

Autoridade ou Permissividade? Colaboração na descoberta!


Catarina Rodrigues
Psicoterapeuta

(Jornal Público, 8 de Dezembro de 2013)





Muitos serão os pais que se debatem com a questão da permissividade vs autoritarismo, questionando-se da sua influência (e da sociedade em geral) na actuação com os seus filhos e de como isso tem contribuído para a sociedade em que vivemos, em que se fala de uma falta de respeito pelas regras e valores e onde a competição, o lucro e a indiferença face ao outro parecem dominar.

Como veicular o respeito pelo outro e o valor essencial da cooperação, em detrimento de uma competição a todo o custo? O conceito win-win do mundo da gestão (que significa que ambos ganham) é o nosso ponto de partida!

Na minha perspectiva, não se trata de um combate entre a permissividade e a autoridade. Trata-se de ver o bebé e a criança como uma pessoa e tratá-la como tal, isto é, com respeito, carinho, tolerância, e encararmo-nos a nós mesmos como facilitadores da sua aprendizagem do mundo e de si mesma, estimulando com bom-senso as suas explorações, atentos e firmes ao que pode ser perigoso... mas também atentos ao que faz brilhar os seus olhos de entusiasmo face à crescente capacidade de entendimento e de realização (orgulho nas suas competências, dito de outra forma). Dar-lhe alternativas ao que não pode fazer, explicando a nossa atitude de protecção e mostrando outras coisas fascinantes do mundo que a rodeia.

Nesta linha de ideias, não faz sentido encarar o bebé ou a criança como um tirano que desautoriza com os seus comportamentos (o conhecimento obriga à repetição e à “desobediência”, no sentido de tentar perceber e experimentar por si mesmo) e a quem temos de domar, para que cresça obediente (mas sem crítica) face ao adulto; nem se trata de tudo lhe permitir, com medo do seu choro ou da sua zanga (o que gera insegurança em si e nos outros); nem como um ser que não tem intenção e vontade e que não precisa perceber a nossa actuação em relação a ela. Afinal, só respeitamos quem nos respeita e nos explica a sua actuação, para que o possamos entender… e concordar ou discordar. O bebé e a criança devem crescer, sim, com estímulo à sua capacidade de pensar e tomar decisões, explorando a realidade que o rodeia e compreendendo que os adultos são seus parceiros.

Assim sendo, diante do bebé e da criança temos de estar disponíveis para ver o seu lado e tentar perceber as suas reacções de acordo com o olhar da infância. Há certamente uma razão compreensível para a actuação do seu filho. A postura win-win significa que, para sermos respeitados pelo nosso filho, temos de o tratar da mesma forma e estar disponíveis para percebê-lo a luz da sua maturidade e competências. É sabermos agir a autoridade de quem sabe mais sobre o mundo (mas não tudo), mas disponíveis para ouvir a “comunicação relacional” do nosso filho e tentar percebê-lo. É agir de forma em que ele se sinta respeitado; ajudado a experimentar o mundo com segurança e entusiasmo; e contido nas suas zangas e frustrações com amor e paciência.

Ser pai é ser parte integrante, activa e com mais conhecimento no desenvolvimento do bebé. O que tem implicações e exigências, sobretudo em termos da disponibilidade emocional. Ninguém diz que ser pai é fácil. Não o é.

Não é que não existam regras quando brincamos ou vemos brincar o bebé. Mas estas são naturais e assentes nos limites que todos temos à nossa actuação. O que é diferente de coibir, adjectivar negativamente, não estimular ou castigar o comportamento exploratório espontâneo do bebé.

Só experimentando os sucessos, os erros, vivendo as sintonias e as dessintonias na relação é que ganhamos autonomia, independência e capacidade crítica. Só assim aumentamos o sentido de competência própria. E isso é possível numa relação de cooperação, em que a tónica não está no dominar, mas no compreender e explicar. Papel a desempenhar primeiro pelo adulto, que tem mais maturidade, e que progressivamente vai sendo integrado no estilo relacional da criança.

18/11/2013

Direito a ter vontade própria - III


Catarina Rodrigues

(Jornal Público, 10 de Novembro de 2013)



A maioria dos pais deseja que os seus filhos se desenvolvam no sentido de serem adultos felizes e competentes na sua vida. Contudo, muitas vezes tal desejo mostra-se confundido com um tipo de educação assente no “modelo do adulto”. Ou seja, centrada no futuro (ser adulto), e não no momento presente (ser bebé), e que, por isso, pode traduzir-se no controlo dos comportamentos espontâneos do bebé que não são consentâneos com as exigências de ser um adulto.

Nesta visão, o bebé é considerado como alguém a moldar ao mundo dos adultos, e não como alguém a ajudar a expandir-se ao ritmo da sua maturidade e lógica infantil. Neste sentido, os pais valorizam comportamentos como o estar sossegado e ser obediente e manifestam desagrado face a comportamentos como o não querer emprestar, chorar e bater com os pés e com as mãos como demonstração do seu querer, entre outros. Estes, pelo seu carácter agressivo, raramente são entendidos como comunicação dos sentimentos e das vontades do bebé de acordo com a sua maturidade. Se o fossem, poderiam ser alvo de aceitação por parte do adulto, imperando uma perspectiva de negociação e clarificação de vontades... e não de castigo ou de imposição. Transportando para a lógica do adulto: é como se perante um adulto que é assertivo na sua vontade, outros o considerassem agressivo e o reprimissem e castigassem.

Faço-vos o convite de refletirem sobre este exemplo: quando estão presentes várias crianças que não se conhecem num parque e uma delas tem um brinquedo que naturalmente será considerado interessante pelas restantes, é comum ver-se o adulto dizer à criança que deve emprestar esse brinquedo. A mesma exigência seria feita ao adulto? A criança, inclusive, se não quiser emprestar, será criticada e considerada invejosa: «Não é isso que eu te ensino. Tu tens de aprender a partilhar. Eu estou preocupada com este teu comportamento». E pode mesmo ser retirado o brinquedo das mãos da criança e dado à outra... a qual, mais sensível e empática, geralmente mantém uma atitude de reserva e de observação.

Em primeiro lugar, é importante referir que aprendemos a partilhar quando sentimos que fomos respeitados na nossa necessidade de posse e de protecção do que é nosso. Em segundo lugar, partilhamos espontaneamente as nossas coisas quando gostamos de alguém e sentimos prazer acrescentado em brincar com os nossos brinquedos com o entusiasmo e a criatividade dessa outra pessoa.

Em situações como a que vos descrevi acima, penso que é provável que na raiz do comportamento do adulto esteja a sua própria necessidade de ser reconhecido e valorizado. As críticas surgem quando o comportamento do bebé não está em sintonia com as necessidades de reconhecimento e de valorização dos pais. O bebé é tanto mais criticado e mal interpretado quanto mais o seu comportamento não for narcisante para os seus pais. Aquilo que estes sentem que está em jogo é a avaliação da sua função parental... E isso sobrepõe-se à sua disponibilidade emocional para lerem os comportamentos dos seus filhos com o foco nestes, e não em si mesmos.

Acredito que numa relação pautada pelo amor, respeito e complementaridade, o bebé é sentido pelos pais como uma pessoa em desenvolvimento e o seu maior entusiasmo é vê-lo crescer e expandir as suas competências ao ritmo da infância. A relação estabelecida com ele é, pois, uma relação de pessoas com maturidades diferentes.

Encarar o bebé como uma pessoa e a nós próprios como facilitadores da sua aprendizagem de si mesmo e dos outros, das emoções, do mundo que o rodeia e das consequências neste que os seus actos podem ter, tem, na minha perspectiva, mudanças no modo como nos relacionamos com o bebé e nos encaramos como pais. Por isso, faz-me sentido encarar o bebé, desde que nasce, como um ser com competência para expressar as suas necessidades e vontades. Cabe ao adulto ser capaz de as entender e significar com sensibilidade e empatia.

Direito a ter vontade própria - II


Catarina Rodrigues

(Jornal Público, 3 de Novembro de 2013)


Vivendo num ambiente relacional pautado pelo amor, aceitação, tolerância, respeito, reconhecimento como pessoa, entusiasmo, coerência e veracidade, os comportamentos espontâneos do bebé ganham significado comunicacional entre ele e as suas figuras preferenciais.

Sentindo-se entendido e alvo de desejo de entendimento e de correspondência, o bebé compreende que o seu comportamento é importante e gera uma resposta nas figuras que o rodeiam. Ou seja, sente que o seu comportamento é aceite como expressão das suas necessidades e vontades. A qualidade do afecto por parte dos cuidadores, bem como o respeito, a vontade de entender e corresponder ao seu bebé, a coerência e a veracidade do seu comportamento e da sua comunicação, faz com que o bebé os reconheça como figuras importantes e fidedignas do mundo que o rodeia.

Efectivamente, os bebés percebem do esforço (ou não) que os pais fazem para os entender e dar-lhes a melhor resposta. Os bebés sentem a apreensão dos pais e o seu alívio quando conseguem perceber e responder ao desconforto. Também eles tentam fazer-se entender, apenas se acalmando quando os pais acertam na significação. Quando mais crescidos, os bebés riem-se, podem mesmo bater palminhas, quando os pais percebem o que querem e lhes vão buscar ou fazer. E aprendem a dizer “não” quando os pais não acertam e continuam a esforçar-se por se fazer entender, dizendo, na sua linguagem gestual, comportamental ou verbal muito própria, o que querem.

É verdade que o recém-nascido não sabe atribuir significação às sensações que sente. Precisa que os pais cumpram essa função. Porém, penso que transmitem de forma transparente (menos saturada de pensamentos) aquilo que sentem (choram se sentem algum desconforto) e dão também resposta inequívoca quando se sentem correspondidos (ficam tranquilos e contentes).

À medida que crescem, o facto de se terem sentido bem significados e correspondidos pelos cuidadores, faz com que sintam mais confiança na sua compreensão daquilo que sentem e se sintam mais legitimados para se expressarem face às suas necessidades e vontades. Sentem-se confiantes de que vão ser entendidos.

Penso que existirá uma matriz genética que informa da importância do adulto, nomeadamente das figuras parentais. Porém, é necessário que a resposta destas face à comunicação do bebé seja sentida como uma resposta complementar, coerente, amante, que traga uma sensação de bem-estar (se estamos a falar de necessidades biológicas) e de compreensão e expectativa face ao mundo (se estamos a falar da curiosidade espontânea que o bebé sente pelo mundo relacional e físico que o rodeia). Ou seja, tem de existir uma boa significação por parte dos pais em relação ao que é transmitido pelo comportamento ou linguagem do bebé.

Só assim compreendo que exista doença mental: porque na mente do bebé é detectada uma incoerência, ausência de afecto, maus tratos, ausência de disponibilidade mental, rigidez e imaturidade nos comportamentos das figuras significativas. Ou seja, o bebé é dotado de uma extrema sensibilidade à qualidade e adequação da resposta das figuras parentais... e isso faz parte do seu programa genético.
Efectivamente, o bebé tem uma competência inata para analisar e avaliar os sentimentos e a intencionalidade dos outros, nomeadamente das figuras de vinculação (intersubjectividade), construindo a todo o momento o que Coimbra de Matos designa uma teoria da mente (sua e do outro), a qual começa a ter expressão por volta dos 5/6 meses.

O que pretendo salientar é que existe nessa matriz emocional provavelmente uma informação do que é uma boa relação. Na sua ausência, fica a esperança de tal vivência relacional ser possível com outras pessoas. É por isso que as relações amorosas são tão importantes. Elas detêm a possibilidade de colocar em movimento o desenvolvimento que ficou em suspenso, visto serem relações de intimidade, à semelhança das relações precoces.

26/09/2013

Direito a brincar com o lado infantil dos pais

Jornal Público (8 de Setembro de 2013)

Catarina Rodrigues
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Brincar apaixonadamente com o seu bebé é o modo mais natural de relação com este e aquele que melhor o ajuda a crescer. O enamoramento tem a grande virtude de trazer um olhar mais tolerante e menos exigente e torna o brincar/o prazer a base da relação. Contudo, nem todos os pais se sentem à vontade para brincarem com o seu bebé. Provavelmente, não souberam o que foi brincar com os seus próprios pais. E muito provavelmente, com o passar dos anos, esqueceram o que sentiram e o que pensaram quando crianças. Outros podem não ter esquecido, mas calaram a voz infantil para privilegiar a voz de adulto (confundida com autoridade), provavelmente porque os faz sentir mais seguros e confiantes.

Em meu entender, comunicar/brincar com o seu filho depende essencialmente da sua capacidade para tomar contacto com o seu lado infantil e para refletir sobre a sua experiência como bebé e criança. Efetivamente, compreendemos melhor os nossos filhos quando a sua comunicação (não verbal e verbal) encontra ressonância e empatia dentro de nós. Ou seja, quando o nosso filho comunica diretamente com o nosso “bebé interior”.

Quando falo em “bebé interior”, refiro-me à imagem que guardamos a partir da experiência que tivemos enquanto bebés, do modo como sentimos a relação com os pais: o que guardamos do que foi bom (e é para repetir) e o que guardamos do que não foi bom (e que pretendemos fazer diferente ou, na ausência de consciência, projetamos para o exterior). Contudo, esclareça-se, nem sempre tal imagem coincide com o bebé real que se foi na infância, ainda que se encontre sempre em relação com ele.

O “bebé interior” tem a ver com o nosso “eu” mais genuíno. É a expressão interna de uma matriz relacional assente na expectativa precocíssima de um cuidado parental assente na tolerância, no estímulo, na espontaneidade e no amor. Tal cuidado parental é reconhecido precocemente, e de modo não consciente, pelo bebé, funda o psiquismo e influencia de forma inequívoca o estilo relacional da pessoa. A sua ausência faz surgir a resposta psicopatológica.

Quando em contacto com o nosso “bebé interior”, ficamos mais aptos a compreender que muitas vezes somos injustos, culpabilizantes, humilhantes, agressivos e intolerantes com os nossos filhos, porque respondemos com uma contra-identificação ao seu lado infantil. Usamos e abusamos da voz de adulto autoritário, porque temos pouca tolerância em pensar sobre as razões porque os nossos filhos não fazem aquilo que dizemos. Talvez tenhamos dificuldade em olhá-los como seres com vontade própria e capacidade de escolha precoces. Talvez nos custe sabê-los como seres independentes e com impulso para a autonomia logo desde o nascimento. Talvez nos sintamos inseguros… e usemos a farda de pais porque precisamos sentirmo-nos importantes.

Aquilo que pretendo transmitir é que, enquanto pais, podemos e devemos dar ouvidos à nossa voz infantil e comunicarmos, brincando (a linguagem do bebé), com os nossos filhos com a liberdade e a espontaneidade que estes possuem face ao mundo. Pode constituir, inclusive, a oportunidade de expansão do seu “eu”, mais capaz de uma relação de maior proximidade, liberdade, satisfação e amor.

Comunicando através da voz da infância, percebemos que estar com o nosso filho não tem de ter a tónica no educar, mas no escutar a sua vontade. É ele o nosso guia na brincadeira, mostrando o que quer conhecer/explorar/brincar. Sentemo-nos no chão com ele. Andemos atrás dele a ver o que nos quer mostrar. Olhemos com o olhar infantil e deslumbremo-nos com a luz, a cor, a forma das coisas em que o nosso filho toca e toquemo-las como ele o faz. E novamente crianças, damos por nós a sorrir, maravilhados como ele. Depois, como se de mágicos nos tratássemos, podemos desvelar-lhe mais potencialidades dessas mesmas coisas. E colocar mais brilho nos seus olhos, vivos e ávidos de novos conhecimentos.

Direito a ter pais imperfeitos

Jornal Público (11 de Agosto de 2013)

Catarina Rodrigues
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta
catarina.nasc.rodrigues@gmail.com

Quando o mundo mental dos pais assenta numa base insegura, as dúvidas, as comparações, as críticas e os julgamentos podem ser sentidos como “imperfeições”… e perturbar a disponibilidade emocional para ler as necessidades dos filhos. Ou seja, tais “imperfeições” transformam-se em pedras que emperram a fluidez da relação pais-filhos.

Isso sucede porque o amor próprio não está alicerçado numa base de auto-confiança, mas de insegurança, desvalorização e extrema exigência. Assim, em momentos de maior fragilidade ou tensão, a falta de confiança domina o olhar sobre a maneira de educar e estar com os filhos… e bloqueia a espontaneidade e criatividade, impedindo o desenvolvimento de um ciclo virtuoso.

Por exemplo, perante pessoas significativas, pode agir com os seus filhos de forma mais contida, ansiosa e exigente. Serão momentos onde aumenta a probabilidade de você achar que os seus filhos se “comportaram mal”. Por um lado, quer certamente que se orgulhem de si e estará menos tolerante com alguns comportamentos dos seus filhos, que são sentidos como naturais noutras situações. Por outro lado, está tão alerta ao que essas pessoas dizem/fazem que deixa de estar em sintonia com a comunicação verbal e não-verbal dos seus filhos. E pode até dar por si a procurar “modelos” nos outros, em detrimento de valorizar o que pensa e sente que é correto.

O sentimento de insegurança está correlacionado com a relação primária e a experiência emocional concreta de não se sentir que as pessoas significativas reconheceram nem reconhecem competência e maturidade, mostrando-se exigentes ou insatisfeitas ou desvalorizadoras ou distantes ou fechadas em si mesmos e nos seus problemas.

Geralmente, ser pai favorece a aproximação aos seus próprios pais, reativando desejos e necessidades insatisfeitas. Quando permanece o desejo de ser valorizado pelos seus pais, a função parental pode ser sentida como mais uma oportunidade para transformar a imagem que sente que estes têm de si… e desenvolver com eles um tipo de relação sanígeno.

Contudo, nem sempre tal transformação é possível. Não é fácil mudar dinâmicas instaladas sem que exista da parte dos vários membros uma capacidade de aceitação, reflexão e motivação para a mudança.

Por isso, a transformação mais certa é aquela que pode operar em si mesmo. Reflita sobre a sua exigência para consigo e sobretudo para com os seus filhos. Talvez radique no facto de continuar a exigir-se uma imagem de competência sem falhas. Aquela que sem dúvida lhe granjearia o valor tão esperado. E se irrite tanto ou se sinta frustrado quando as “imperfeições” aparecem em si e nos seus filhos. Talvez se sinta desiludido com os seus filhos por não serem “perfeitos”, pois tal agudiza o seu sentimento de estar aquém/ser falhado como pai.

Contudo, a questão que gostaria de deixar para refletir é: para quem quer ser perfeito? E para quem quer que os seus filhos sejam perfeitos?

Saiba que os filhos aceitam pais imperfeitos na sua maneira de os educar, desde que sintam, desde o primeiro momento da relação, que são respeitados e amados de forma incondicional. Percebem que os pais se esforçam por lhes corresponder de forma sensível, adequada e contingente, mas que nem sempre o conseguem… E estão dispostos a procurar fazer-se entender até que a comunicação esteja afinada entre uns e outros. Acreditam na capacidade dos pais.

E, além disso, face aos pais imperfeitos, as crianças estão mais à vontade para serem autênticas: com as suas birras para mostrar a sua vontade própria; “más” maneiras a comer à mesa, porque estão a explorar a comida e a treinar comer sozinhos; sujar-se, porque brincar implica explorar; responder-lhe “não” porque sabem que são considerados como pessoas.

Concluindo, os bebés têm direito a ter pais que convivam com a sua imperfeição. E assim tenham disponibilidade emocional para conviver com a imperfeição dos seus filhos.

Os Direitos dos Bebés

Jornal Público (21 de Julho de 2013)


Catarina Rodrigues
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Quando é que começamos a ter direitos? Podemos falar de direitos dos bebés? E porque seriam importantes?

Apesar da evolução positiva que se tem vindo a operar em relação ao conceito de bebé, realço a importância desta fase fundadora do desenvolvimento humano… e de como depende de uma série de condições basilares, a que denominarei direitos dos bebés.

De modo a poder explorar melhor este tema, irei refletir convosco ao longo de alguns artigos. Este versa sobre o:

Direito a ter pais emocionalmente disponíveis

Quando nasce, o bebé é um ser humano. Mas só se torna pessoa através da relação com os seus cuidadores, como o demonstram os estudos sobre a interação mais precoce. Depende do estabelecimento de um vínculo amoroso por parte dos cuidadores e da capacidade destes para responder de forma sensível, contingente, adequada e criativa às necessidades/comportamentos do bebé. E do reconhecimento de como esta relação é fundadora do seu “eu”.

A função parental é, pois, exigente, porque começa numa fase que não está assente na linguagem verbal, exigindo capacidade de se colocar no lugar do bebé e de escutar e agir com o coração. Isto é, que se esteja emocionalmente disponível para entender a comunicação emocional do bebé e corresponder-lhe empaticamente.

Em meu entender, tal é facilitado quando os pais conseguem recuperar e ouvir o bebé que vive dentro de si. Ou seja, quando os pais se permitem “ser bebés”, sem perder o seu estatuto de adulto.

Alguns pais têm esta capacidade de forma natural e intuitiva. Outros têm mais dificuldade. Provavelmente eles próprios não puderam ser bebés de forma livre e espontânea. São pais que confundem educar com autoritarismo e domínio e que olham para o bebé centrados na sua perspetiva de adulto, exigindo-lhe uma maturidade que este não possui… Ora, o bebé respeita as normas dos adultos, quando primeiro sente que os adultos o respeitam, mais do que o “educam”/limitam face à sua vontade de agir sobre o mundo.

Quando nos permitimos olhar para o bebé deixando ressoar o bebé que está dentro de nós, percebemos que o brincar e a demonstração de amor, orgulho e de incentivo são a sua linguagem e que é através desta que ele cresce e se desenvolve. Afinal, todos são manifestação da nossa confiança genuína na capacidade daquele em conquistar com competência o mundo que será o seu.

Assim sendo, defendo que deve ser o adulto a adequar-se à imaturidade da comunicação do seu bebé, reconhecendo na brincadeira o modo como ele experimenta, entende e aprende sobre o mundo que o rodeia. Por isso, “fale” com ele através da brincadeira e da exploração, criando alternativas para aquilo que ele não pode fazer. Exige mais tempo e mais criatividade que irritar-se ou limitar a sua ação com um “não” retumbante. Mas o seu bebé aprende consigo alternativas ao que não pode fazer, encarando a vida como algo que pode sempre conquistar. Se não de uma forma, então de outra.

Tomemos o exemplo da birra. Antes de se irritar, exigir ao seu bebé que se comporte “bem” e procurar dominá-lo com gritos, bater-lhe ou deixá-lo sozinho, respire fundo, dê tempo para essa manifestação, procure perceber o que está a ser transmitido e aceite-o como válido e adequado. Os bebés comunicam de forma muito genuína o que necessitam. Sente-se ao pé dele, ouça-o, procure entender e leve a sério a sua vontade. Não se fixe na emoção negativa. Abrace-o e acarinhe-o. Vai ser bom para os dois e diminui a tensão. Todos nós nos acalmamos quando alguém se disponibiliza para nos ouvir e perceber a nossa razão. Com os bebés é igual.

Mas para o ajudar a compreender os motivos da recusa e a descobrir alternativas, tem de usar a linguagem da brincadeira. Explique a razão do seu não e cative a sua atenção para outra coisa. Ele está ávido de aprender mais sobre o mundo que o rodeia. Rapidamente percebe que há mais para explorar e não se importará de deixar o que estava a fazer. Sobretudo, se você for o seu alegre companheiro de exploração!

Afinal, qual é o papel dos pais?

Jornal Público (26 de maio de 2013)


Catarina Rodrigues
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Assistimos a mudanças qualitativas na relação entre pais e filhos, crescendo o número de pais que reconhecem a importância de acompanharem o desenvolvimento do seu bebé. Alguns, privilegiados, fazem alterações na sua vida profissional de modo a que aqueles possam ficar os 2 ou os 3 primeiros anos de vida em casa com um dos pais, a tempo parcial (mais raramente a tempo inteiro), com o apoio ou dos avós, ou de uma ama, ou mesmo de uma creche, onde deixam o filho nos dias em que têm de ir trabalhar. O que não abdicam é de um período exclusivo com os seus filhos, em que se dedicam inteiramente a eles e se focam no prazer de estar com eles.

São pais emocionalmente disponíveis para os seus filhos, graças, também, ao crescimento financeiro que se observou nas décadas anteriores e que deixou os pais mais libertos das preocupações com as necessidades básicas de comer e da saúde e, por isso, disponíveis para uma outra necessidade básica que é liberdade/tempo para amar.

A crise atual já está a inverter este ciclo… mantendo-nos contínua e cronicamente afastados das políticas de assistência à família que vemos em países mais desenvolvidos. Países onde os governos sabem que mais amor na infância gera adultos mais seguros, menos doentes psicologicamente e mais capazes de construir uma sociedade melhor.

As mudanças a que assistimos impõem, pois, que pensemos qual o papel dos pais contemporâneos.

Afinal, qual é o nosso papel?

O bebé tem um potencial de desenvolvimento emocional saudável enorme. Ao nascer, espera sobretudo um meio acolhedor da sua espontaneidade e está disponível para aprender tudo o que é humano pelo humano, nomeadamente através das figuras parentais.

O impulso para o desenvolvimento efetiva-se na interação com o humano. Só me interesso pelos outros porque antes alguém se interessou por mim e me mostrou que os outros são, por isso, dignos do meu interesse. Sem este interesse primordial, o bebé fica cativo de uma necessidade insatisfeita e, embora vá crescendo fisicamente, emocionalmente permanece com esta necessidade em suspenso.

Note-se, pois, que os bebés não são tábuas rasas nem aceitam todo o tipo de cuidado que lhes é prestado, embora, dada a sua imaturidade e dependência, não tenham outra solução senão moldar-se.

Ora, em meu entender, é necessário reconhecer o bebé como uma pessoa em desenvolvimento. Fazendo-o, o nosso olhar sobre ele altera-se. De repente, não somos nós, adultos, que estamos no centro da questão, mas o bebé. O que é que isto quer dizer?

Quer dizer que, ao desejo epistemofílico inato do bebé deve corresponder uma atitude facilitadora dos pais. Quando falo em atitude facilitadora dos pais, estou a referir-me ao impulso natural dos pais em apresentar o mundo (natural e humano) ao seu bebé, por um lado, e em “seguir” a curiosidade do bebé no seu processo de conhecimento, por outro.

Ou seja, após uma primeira fase em que é o adulto que “inicia” a apresentação do mundo que será o do seu filho (no primeiro trimestre de vida), progressivamente vai sendo o bebé a comandar. Se a sua curiosidade é respeitada e respondida, o bebé sente-se competente na sua capacidade de exprimir o que quer e torna-se cada vez mais explícito sobre as coisas que quer ver, mexer e experimentar.

Assim sendo, penso que a arte da função parental é dar a resposta adequada ao desejo de conhecer inato do bebé. Neste sentido, os pais são como um farol (usando as palavras de António Coimbra de Matos): alguém que ilumina o caminho para que o outro possa fazer a sua escolha.


Contudo, só iluminar não chega. Para que a aprendizagem se instale numa auto-estima segura, é necessário que exista prazer e alegria inegáveis, espontâneos e consistentes face às conquistas do filho. É a luz do orgulho que ilumina a face parental que bafeja o amor próprio do filho, deixando sementes bem seguras de sentimentos de competência e de ser amado!

Orgulho Parental - o ingrediente secreto

Jornal Público (28 de Abril de 2013)


Catarina Rodrigues
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

É bem cedo no desenvolvimento infantil que nos apercebemos da importância do olhar e das verbalizações de orgulho por parte das figuras parentais em relação às conquistas que os filhos vão fazendo e da influência que têm na perseverança e na confiança da pessoa ao longo da vida.

Em minha opinião, tal importância é reconhecida pelo bebé tão cedo quanto os 4/5 meses. Efectivamente, crescendo no seio de uma relação de amor, é por volta dessa idade que podemos observar que o bebé faz coisas com intenção de despoletar reacções de orgulho e de espanto nos pais. Por exemplo, pegou num livrinho que os pais lhe costumam ler, ri e olha para os pais à espera da resposta. Com mais idade, olha para os pais enquanto faz alguma coisa e bate palminhas e ri – exemplificando a reacção que “espera” da parte dos pais. Comportamento que demonstra bem como, precocemente, somos capazes de “pedir” aquilo de que precisamos para crescer: o deslumbre, o orgulho e o prazer do outro significativo… Para o perceber, basta estar atento e disponível emocionalmente.

A luz que é projectada do olhar de orgulho parental é captada e interiorizada pelos filhos sob a forma de reconhecimento da sua competência, de deslumbre face à capacidade demonstrada. Em suma, de orgulho face ao filho que se tem.

Quando somos bebés, o olhar é um veículo por excelência da comunicação intersubjectiva entre nós e o outro. Há outros sinais comunicantes, como as hormonas, e que captamos a um nível não-consciente e que nos dão informação mais precisa sobre a sintonia entre aquilo que vemos e que sentimos por parte do outro. E que antes de falarmos e de compreendermos bem a linguagem verbal se tornam informação preciosa sobre como somos vistos, sentidos e compreendidos pelo outro significativo.

Os bebés são extremamente sensíveis às emoções dos pais e conseguem discriminar a genuinidade das suas expressões. Como seres não falantes, os bebés são peritos na captação da informação não-verbal e essa informação fica guardada na memória de uma forma não-consciente, como proto-sentimentos ou precursores de sentimentos.

Percebemos bem essa importância quando estamos diante de pessoas que se não se sentiram o alvo do orgulho dos pais e de como isso funcionou como um agente depressígeno em toda a sua vida. A falta do orgulho parental deixou uma pedra no sapato que impediu a pessoa de andar bem, correr e até de saltar os obstáculos da vida.

Na ausência da luz do orgulho parental (que dá calor e energia), fica a sombra fria da depressão, que bloqueia o ânimo e a confiança.

Sou como fui visto/amado

Para compreendermos bem porque é que o papel dos pais é tão importante no desenvolvimento, temos de pensar sobre o seu papel na construção da nossa identidade.

Embora tenha uma base biológica, a identidade é uma construção relacional. Precocemente (até aos 18 meses de idade), bebé identifica-se pela incorporação-assimilação da imagem com que o outro o define. Ou seja, “sou como fui conhecido”. Vou construindo a minha ideia de mim através da assimilação que faço da imagem que os meus pais me devolvem de mim próprio. Coimbra de Matos designa-a por identificação imagóico-imagética.

Por isso, quando falo em orgulho parental não estou a falar de orgulho narcíseo (em que os pais se orgulham de forma narcísica do elevado desempenho dos seus filhos), mas sobretudo da espontaneidade do prazer de conhecer e de ver o nosso filho descobrir e actuar no mundo. Isso, por si só, é deslumbrante!

Tal olhar parental fá-lo sentir-se único, especial e capaz de conquistar o mundo. E isso é tudo o que é preciso para se desenvolver. Os limites e as frustrações, as insuficiências e as decepções serão ensinamentos da vida, que poderão ser melhor geridos – isto é, sem afectar a auto-estima – quanto mais a pessoa se sentiu apreciada e valorizada. Um valor que fará parte da sua reserva interna: «Sei do meu valor como pessoa porque fui e senti-me valorizado/amado».

14/01/2013

Crescendo ao ritmo do amor


Catarina Rodrigues
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta

Outubro de 2012
Seguindo o ritmo do bebé – o mimo é importante!
As questões sobre a independência e autonomia do bebé suscitam debates apaixonados entre aqueles que acham que o mimo cria “manha”, senão mesmo um bebé ditador, e que tem consequências ao nível da capacidade de autonomia futura, e aqueles que consideram o mimo como um modo natural de relação com o bebé e que é este que constitui a base onde assenta o crescimento para a independência e autonomia.
Sempre me considerei pertencente ao segundo grupo de opinião e desde há muito que me interrogo do porquê desta exigência face aos bebés. Agora, por ser mãe recente, estas interrogações ganham redobrada força e novas reflexões.
Todos nós já ouvimos, certamente, alguém dizer, diante da tríade pai/mãe-bebé: «Não dês tanto colo. O bebé fica mimado e cheio de manha e não vai querer outra coisa. E é mau para o seu desenvolvimento». Questiono-me, contudo, que sabedoria popular ou que estudos científicos comprovam que o colo, na fase mais precoce do ser humano, prejudica o seu desenvolvimento? Que exemplos temos de crianças-problema que tenham “sofrido” do dito “colo a mais” em bebés?
Da minha experiência, leituras e reflexão, as patologias e as perturbações emocionais do desenvolvimento surgem em reação a um quadro de relações precoces problemáticas, onde faltou uma relação de amor clara, inequívoca, mútua, generosa e caracterizada pelo respeito (incluindo o respeito pelo ritmo do bebé), reconhecimento da individualidade e das potencialidades da pessoa.
O papel dos pais desvela-se na disponibilidade para a construção de uma relação de intimidade, assente na observação atenta e sensível do seu filho, procurando que as suas respostas sejam contingentes, adequadas e empáticas às necessidades e competências daquele. E para tal, basta estar atento ao bebé e levar a sério as suas manifestações. Ou seja, considerá-las como comunicação relacional.
Efectivamente, o choro e o comportamento corporal nos bebés são meios de comunicação de alguém que ainda não tem capacidade de pensar-se e de falar. Partilho a ideia de que o choro e o comportamento corporal têm significado relacional e que é função dos pais procurar descodificar e significar através da resposta adequada. O bebé ao chorar está a comunicar com os meios que conhece e estão ao seu alcance.
Ou seja, desde que nasce e começa a sua relação com os seus cuidadores preferenciais, normalmente os pais, o bebé inicia o seu processo de comunicação e de adaptação ao estilo de comunicação e de cuidado que esses cuidadores lhe oferecem. Trata-se de um comportamento geneticamente definido e cuja relação com outros humanos molda e potencia. Efectivamente, somos seres sociais e, desde que nascemos, procuramos a relação com outros humanos. É nessa relação que nos sentimos amados, entendidos, desafiados e que aprendemos e crescemos como seres humanos de pleno direito.
O recém-nascido apresenta, pois, um repertório comportamental que estabelece a ponte entre si mesmo e os outros humanos, preferencialmente os seus cuidadores, salientando-se o choro, o modo como molda o seu corpo ao cuidador, a exploração que faz com as mãos, e alguns sons que emite e que transmitem mal-estar/bem-estar ou até mesmo reconhecimento do seu cuidador.
Não considero, pois, que o recém-nascido esteja num estado de indiferenciação e que não reconheça o meio exterior como tal ou que viva num estado simbiótico e fusional. Penso que o bebé, desde que nasce, percepciona-se, ainda de uma forma imatura, a si mesmo e ao outro, nomeadamente os seus cuidadores, relativamente a quem tem uma atenção prolongada e diferenciada desde o momento do nascimento.
Efectivamente, depois de nascer e quando é colocado ao colo da mãe, o bebé passa bastante tempo olhando para a mãe e cheirando-a (sublinhando-se que o olfacto é um dos sentidos mais antigos que possuímos). Ele reconhece a mãe pelo tom de voz. Este é um pouco diferente daquele que ouvia no útero, mas a cadência do discurso é a mesma. Agora, decora o seu rosto, o seu cheiro, molda-se ao seu colo. A mãe sente-se scanerizada e está ela própria num estado de vigília invulgar (devido às hormonas libertadas no parto), incapaz de desviar o olhar do seu bebé, em relação a quem decora todos os traços e em relação a quem procura perceber as suas necessidades, “adivinhando-as” no seu comportamento.
Considero, pois, o bebé como um parceiro visivelmente activo na relação com os seus pais desde o momento em que nasce, manifestando uma série de comportamentos que procuram comunicar as suas necessidades fisiológicas e emocionais (ainda no útero, já esta comunicação se adivinha: o bebé reage às vozes dos pais e à estimulação táctil na barriga). Comunicação biologicamente determinada, pois dela depende a sobrevivência (não é por acaso que a sabedoria popular diz: «Bebé que não chora, não mama»), e cujas características se vão firmando na interacção bebé-pais, pois é nesta interacção que ganham sentido. Ou seja, o bebé aprende com as respostas que os pais lhe dão às suas necessidades e competências. E assim se constitui pessoa!
Ora, as necessidades de um bebé, como de qualquer ser humano, não se esgotam no sentir-se saciado, limpo e com boa temperatura corporal. Nem a mãe não se torna única e especial por dar o leite. Não é isso que torna os pais imprescindíveis. O que os torna únicos é a qualidade do amor que sentem pelos filhos. Ou seja, é o mimo que votam ao seu rebento. Um amor que a sabedoria popular classifica como laço de sangue e lhe confere uma qualidade distintiva no trato que se dá ao bebé. Este laço de sangue, laço geneticamente enraizado, transforma o olhar dirigido ao bebé (não é um bebé qualquer; é o meu filho, é uma parte de mim e de mim depende a sua sobrevivência) e inunda os pais de uma imensa disponibilidade para amar.
Diante de um bebé recém-nascido é natural, por parte do adulto, a reação de o agarrar, tocar, embalar, olhar/observar, contemplar, mimar, sobretudo se for pai desse bebé. Não se trata apenas de uma reação espontânea de amor face ao bebé, trata-se também de uma resposta complementar ao comportamento do bebé, nomeadamente o choro. Com efeito, quando o bebé chora, os pais têm o impulso natural de lhe pegar e envolver. Quando penso nisso, constato a maravilhosa complexidade e sabedoria da natureza: à imaturidade do bebé corresponde a resposta natural do adulto em agarrar, cuidar, acalmar, ensinar.
Quem sabe qual a boa dose de mimo? Aquela dose suficiente, que bem responde às necessidades de segurança, carinho, aconchego, conforto, proximidade física e emocional do bebé? Não sei se alguém sabe, mas a maioria das pessoas afirma “saber” que a “dose” dada pelos pais é a mais. O mimo parece sempre ser em dose demasiada… Desde que nasce, e às vezes ainda antes, o bebé, pela interposta pessoa dos seus pais, é confrontado com uma série de ditames que afirmam que deve ser o mais rapidamente possível auto-suficiente, autónomo, responsável e sério.
Porque exigimos tanto dos bebés? E de seus pais? Porque se pretende que a resposta espontânea e natural dos pais não seja a mais adequada ao bebé?
Neste sentido, será que a questão do mimo deverá centrar-se no quanto (quanto mimo) ou no quando (até quando o bebé precisa deste tipo de mimo)?

O ritmo do amor não tem regras pré-determinadas e fixas
Esta é uma fase em que mãe e recém-nascido querem, precisam, estar juntos, em íntimo contacto pele a pele. Prolongam a simbiose que conheciam quando aquele bebé estava no útero materno. A separação, normalmente, é sofrida para ambos. Para a mãe, é bom, volvidos 9 meses, ter o seu bebé ao colo e poder tocar-lhe e transmitir-lhe, através do seu toque, do seu olhar, da ternura na sua voz, o quanto o ama. Para o bebé, estar no colo da mãe, sentindo-a, cheirando-a e olhando-a, confere um sentimento de continuidade à sua vivência. Esteve toda a sua vida unido intimamente àquela pessoa, ela é toda a realidade que conhece, que manter-se perto dela confere segurança, confere um sentimento de continuidade na sua experiência de vida.
Neste sentido, questiono-me porque tanto se culpabilizam as mães e os pais por quererem ter os seus filhos recém-nascidos “24 horas” perto de si e nos seus braços. Não se trata, a meu ver, de um perigo para a independência do bebé; trata-se, sim, de um comportamento sensível por parte dos pais, que mantêm coerente e una a experiência do bebé que acabou de sair do útero de sua mãe e que se sente perdido longe da mãe e do pai. E esta necessidade mantém-se, ainda que com gradações diferentes, ao longo do percurso de deixar de ser bebé e tornar-se criança.
Esta necessidade justifica-se, em meu entender, pelo facto de mãe e pai funcionarem como “prolongamentos” do bebé. Incapaz de suprir sozinho as suas necessidades, o bebé chama os pais. E chama-os porque tem fome, porque tem sono, porque tem frio/calor, porque quer conforto, porque quer carinho, quer companhia. Quando nasce, todas estas sensações são avassaladoras e intensas. O bebé não as consegue ainda regular. De modo que pode chamar os pais a todo o instante, acalmando-se quando no colo. É a presença efetiva e afetiva dos pais que lhe traz o sentimento de segurança e de confiança. O recém-nascido verifica que os pais respondem às suas necessidades, trazem-lhe a certeza de não estar sozinho. Por outro lado, sente-se tranquilo com o seu tom de voz, o quente do seu corpo e o ritmo do bater do seu coração (bem conhecido no que diz respeito ao da mãe).
Pode ser uma fase bastante exigente para os pais, sobretudo para a mãe, se o bebé estiver a ser amamentado. Eu recordo-me que, no 1º mês de vida da minha filha, a minha presença era necessária quase constantemente. Lembro-me bem de como isso pode ser esgotante para uma mãe, pois não consegue descansar. Mas também de como não se consegue agir de outra forma, pois o apelo do bebé é muito forte. E isto não significa que este seja um ditador ou mesmo manipulador. Significa, sim, que se exprime bem e que descansa quando reconhecem e respondem às suas necessidades. Não é o que sucede connosco? Na ausência da boa e adequada resposta, fica a frustração, a deceção… e o desenvolvimento fica em suspenso, à espera…
E é esta resposta pronta e afetiva que vai ajudando o bebé a regular-se e a transitar do ciclo uterino para o ciclo da vida no exterior. E é neste respeito pelo ritmo do bebé que a independência e a autonomia vão acontecendo. Reconhecendo-se que aquele bebé já é uma pessoa.
É, pois, minha opinião que os pais se devem regular pelo ritmo do seu filho. Esse é o ritmo do amor. Não há dois bebés iguais. Não há duas pessoas com necessidades iguais. Mas uma necessidade todos temos enquanto seres humanos: crescer. E para isso, necessitamos sentirmo-nos amados, reconhecidos e respeitados e que é no seio desse amor que nos sentimos estimulados e incentivados a crescer!
Os pais emocionalmente disponíveis intuem/sabem quando é necessária a sua presença junto do seu bebé. Sabem-no porque conhecem bem as suas necessidades, atentos que estão a ele desde que nasceu, mas também porque observam e constatam as suas capacidades crescentes. Sentem que o seu filho progressivamente vai precisando deles de forma diferente e que “aguenta” mais tempo sozinho. Está mais confiante e seguro. É este o ritmo do crescimento: da base parental para o mundo. E este ritmo é específico em cada bebé, sem comparações, culpabilizações ou desvalorizações. Se se olhar para a especificidade de cada um, apenas podemos ver as suas conquistas com orgulho e alegria!
 Assim, o desafio é estar disponível emocionalmente para se sentir e “ouvir” as necessidades e as competências específicas daquele bebé. E não há pessoas melhores para o entenderem do que os pais. Porque são as pessoas que mais amam aquele bebé, porque estão com ele 24h por dia, porque, com sensibilidade, são as pessoas que vão descodificando o ritmo de crescimento do seu filho, que vão notando os seus “imensos” progressos e mudanças desde que nasce e o estimulam de forma sensível e contingente às suas competências.
No fundo, seguir o ritmo do amor é dar-se a si mesmo por inteiro à relação com aquele bebé. Dar-se de uma forma inteira e plena, sem normas, nem constrangimentos – como nos damos quando estamos apaixonados! Quem “dita” as regras é quem ama; não quem está de fora. Esses normalmente são para ser contrariados.

O ritmo do amor – o mimo é importante!


Catarina Rodrigues
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta


Contemplar
O nascimento de um bebé suscita uma complexidade de sentimentos em todos os que o rodeiam, e não estou apenas a referir-me aos pais. Ninguém fica indiferente a um bebé, nem ao modo como os pais o tratam.
Para os pais pela primeira vez, que ainda não “provaram” a sua capacidade parental, os palpites, os conselhos, os reparos, as ideias dos outros são mais que muitos em relação ao modo como tratam e devem tratar o seu filho. Pode não ser fácil de gerir, sobretudo quando o cansaço do parto, a diminuição das hormonas do parto, a exigência emocional e física de um recém-nascido e a adaptação à parentalidade consomem parte substancial das energias dos pais.
A intenção de quem rodeia pode até ser a melhor, pode até nem ser com o objectivo de aconselhar ou de criticar os pais, pode ser simplesmente um comentário que se esboçou resultante de uma reflexão interna, pode ser uma partilha de como a pessoa fez em relação a um filho seu… Mas, e consoante a maior ou menor confiança dos pais em si mesmos e um no outro, do grau de exigência que têm para consigo mesmos e do grau de discernimento possibilitado pelo cansaço, e da importância que atribuem às pessoas que fazem tais comentários, estes podem ter um impacto significativo… e desgastar os recém-pais em argumentos e em pensamentos que os podem fazer sentir que se estão a defender e lhes podem suscitar dúvidas que não tinham… Sobretudo enchem-nos de ruído externo numa altura em que, penso eu, é necessário silêncio e carinho.
Acrescente-se que, quando estes comentários emergem da geração anterior (ou seja, dos pais dos recentes pais), antigos conflitos e antigas dinâmicas relacionais podem ressurgir e perturbar o delicado equilíbrio emocional em que os pais se encontram. Nomeadamente, conflitos relacionados com as falhas sentidas na sua relação mais precoce.
Efectivamente, existe, por um lado, uma identificação dos pais ao seu filho, o que os coloca em contacto com o seu lado bebé, reavivando a vivência das falhas da sua relação mais precoce. O que pode resultar numa menor tolerância face às atitudes parentais dos seus próprios pais em relação ao seu filho (isto é, ao neto dos seus pais), uma vez que estas vêm, de forma inconsciente e imediata, reavivar feridas antigas. O modo de ser avós em relação ao neto recorda o modo como estes se relacionaram com os recém-pais quando eram bebés e crianças. Aquilo que antes fora sentido, mas que não tinha uma mente suficientemente madura para ser pensado, elaborado e compreendido, é-o agora, ou pode sê-lo agora. E a consciência das falhas parentais traz uma maior compreensão de quem são os seus pais, mas também de quem se é. De como se tornou quem se é. Iluminam, pois, a história do próprio. E as suas próprias falhas. Que não deseja passar para o seu filho. Que deseja “corrigir” no filho. Ser diferente dos seus pais é, pois, criar um filho diferente de si mesmo. Através do modo como cuida do seu filho, o próprio está também a cuidar do bebé que permanece dentro de si e cujo desenvolvimento não se fez em pleno. Quando predomina um lado saudável nos pais, e a consciência das falhas da relação anterior, estes desejam que o seu cuidar possa ser diferente e permitir que o seu filho cresça melhor e se concretize de forma mais plena no futuro.
E, por outro lado, uma identificação ao seu novo papel, o que implica deixar o seu papel de filhos (e, por isso, estar menos receptivo aos “cuidados” dos seus pais) e assumir o seu novo papel – ser mãe/pai – e pensar de forma independente e autónoma. Sobretudo, cada vez mais de acordo com o seu próprio pensamento.
Estar com uma família recente deveria ser um momento sobretudo de contemplação. Contemplar os pais e seu bebé no acto mágico de afinarem, tão precocemente, uma música de amor. Invadidos por tantas emoções, dúvidas e medos, os recentes pais necessitam de silêncio para serem capazes de discernir finamente os ritmos da música que começou a tocar nas suas mentes logo que olharam e pegaram no seu bebé. Ritmos que inicialmente pareceram emergir de instrumentos algo desafinados ou de som longínquo, difícil ainda de entender. Faz parte do desconhecimento de um primeiro contacto e da inexperiência! Para que os pais os consigam ouvir mais distintamente precisam de estar em contacto íntimo consigo mesmos e com o seu bebé. É nesta tríade que se encontra toda a sabedoria. São momentos em que todos os elementos se contemplam e vão reconhecendo as características, as necessidades e os comportamentos únicos de cada um.
Excepção feita aos pedidos directos de ajuda dos recentes pais, só mais tarde é que os “ensinamentos” do exterior podem ser importantes/relevantes. Este é o momento por excelência de contemplação: do recém-nascido e de seus pais.

Seguindo o ritmo do bebé – o mimo é importante!
Após este prelúdio, gostava de refletir convosco sobre a questão do mimo e da independência. Uma questão que surgiu da minha experiência pessoal de recente mãe e que me parece ser aquela que mais “invade” a tríade.
As questões sobre a independência e autonomia do bebé suscitam debates apaixonados entre aqueles que acham que o mimo cria “manha”, senão mesmo um bebé ditador, e que tem consequências ao nível da capacidade de autonomia futura, e aqueles que consideram o mimo como um modo natural de relação com o bebé e que é este que constitui a base onde assenta o crescimento para a independência e autonomia.
Sempre me considerei pertencente ao segundo grupo de opinião e desde há muito que me interrogo do porquê desta exigência face aos bebés. Agora, por ser mãe recente, estas interrogações ganham redobrada força e novas reflexões.
Diante da tríade pai/mãe-bebé, é comum ouvir-se: «Não dês tanto colo. O bebé fica mimado e cheio de manha e não vai querer outra coisa. E é mau para o seu desenvolvimento». Mas sê-lo-á efectivamente? Que estudos científicos comprovam que o colo, na fase mais precoce do ser humano, prejudica o seu desenvolvimento? Que exemplos temos de crianças-problema que tenham “sofrido” do dito “colo a mais” em bebés?
Da minha experiência, leituras e reflexão, as patologias e as perturbações emocionais do desenvolvimento surgem em reacção a um quadro de relações precoces problemáticas, onde faltou uma relação de amor clara, inequívoca, mútua, generosa e caracterizada pelo respeito (incluindo o respeito pelo ritmo do bebé), reconhecimento da individualidade e das potencialidades da pessoa.
É disso que nos falam as pessoas que procuram a relação terapêutica: de como não se sentiram amadas, reconhecidas e valorizadas. Não se sentiram preferidas, especiais para os seus pais. Ou seja, alvo de um amor que projecta os filhos num futuro de concretização e de orgulho. De como sentiram que as suas necessidades não foram bem entendidas e de como isso lhes coartou a espontaneidade da sua relação com os outros.
Ora, o papel dos pais desvela-se na disponibilidade para a construção de uma relação de intimidade, assente na observação atenta e sensível do seu filho, procurando que as suas respostas sejam contingentes, adequadas e empáticas às necessidades e competências daquele. E para tal, basta estar atento ao bebé e levar a sério as suas manifestações. Ou seja, considerá-las como comunicação relacional.
O choro e o comportamento corporal nos bebés são meios de comunicação de alguém que ainda não tem capacidade de pensar-se e de falar. Por isso, porque alguns insistem que se deve deixar um bebé a chorar («Deixa chorar o bebé. O choro é normal nos bebés»)? Porque se deixa essa comunicação ficar sem resposta? Ninguém gosta de ficar a falar sozinho… Partilho a ideia de que o choro e o comportamento corporal têm significado relacional e que é função dos pais procurar descodificar e significar através da resposta adequada. O bebé ao chorar está a comunicar com os meios que conhece e estão ao seu alcance. Está a falar na linguagem que lhe é própria.
Ou seja, desde que nasce e começa a sua relação com os seus cuidadores preferenciais, normalmente os pais, o bebé inicia o seu processo de comunicação e de adaptação ao estilo de comunicação e de cuidado que esses cuidadores lhe oferecem. Trata-se de um comportamento geneticamente definido e cuja relação com outros humanos molda e potencia. Efectivamente, somos seres sociais e, desde que nascemos, procuramos a relação com outros humanos. É nessa relação que nos sentimos amados, entendidos, desafiados e que aprendemos e crescemos como seres humanos de pleno direito.
O recém-nascido apresenta, pois, um repertório comportamental que estabelece a ponte entre si mesmo e os outros humanos, preferencialmente os seus cuidadores, salientando-se o choro, o modo como molda o seu corpo ao cuidador, a exploração que faz com as mãos, e alguns sons que emite e que transmitem mal-estar/bem-estar ou até mesmo reconhecimento do seu cuidador.
Não considero, pois, que o recém-nascido esteja num estado de indiferenciação e que não reconheça o meio exterior como tal ou que viva num estado simbiótico e fusional. Penso que o bebé, desde que nasce, percepciona-se, ainda de uma forma imatura, a si mesmo e ao outro, nomeadamente os seus cuidadores, relativamente a quem tem uma atenção prolongada e diferenciada desde o momento do nascimento.
Efectivamente, depois de nascer e quando é colocado ao colo da mãe, o bebé passa bastante tempo olhando para a mãe e cheirando-a (sublinhando-se que o olfacto é um dos sentidos mais antigos que possuímos). Ele reconhece a mãe pelo tom de voz. Este é um pouco diferente daquele que ouvia no útero, mas a cadência do discurso é a mesma. Agora, decora o seu rosto, o seu cheiro, molda-se ao seu colo. A mãe sente-se scanerizada e está ela própria num estado de vigília invulgar (devido às hormonas libertadas no parto), incapaz de desviar o olhar do seu bebé, em relação a quem decora todos os traços e em relação a quem procura perceber as suas necessidades, “adivinhando-as” no seu comportamento.
Para os estudiosos da relação mais precoce, e validado por muitos pais, o bebé é um parceiro visivelmente activo na relação com os seus pais, manifestando uma série de comportamentos que procuram comunicar as suas necessidades fisiológicas e emocionais (ainda no útero, já esta comunicação se adivinha: o bebé reage às vozes dos pais e à estimulação táctil na barriga). Comunicação biologicamente determinada, pois dela depende a sobrevivência (não é por acaso que a sabedoria popular diz: «Bebé que não chora, não mama»), e cujas características se vão firmando na interacção bebé-pais, pois é nesta interacção que ganham sentido. Ou seja, o bebé aprende com as respostas que os pais lhe dão às suas necessidades e competências. E assim se constitui pessoa!
Ora, o que torna os pais únicos é a qualidade do amor que sentem pelos filhos. Não tenho qualquer pretensão em definir essa qualidade do amor, muito menos de opinar sobre o que é o amor ou quais as formas “certas” de amar. Existem comportamentos espontâneos do adulto que conferem ao bebé a certeza de ser amado. Um deles é o mimo, na medida em que por mimo se entende gestos de carinho, cuidado e protecção que resultam de um coração cheio de amor face àquele que amamos. Um amor que a sabedoria popular classifica como laço de sangue e lhe confere uma qualidade distintiva no trato que se dá ao bebé. Este laço de sangue, laço geneticamente enraizado, transforma o olhar dirigido ao bebé (não é um bebé qualquer; é o meu filho, é uma parte de mim e de mim depende a sua sobrevivência) e inunda os pais de uma imensa disponibilidade para amar.
Diante de um bebé, seja ele recém-nascido ou já não, é natural, por parte do adulto, a reacção de o agarrar, tocar, embalar, olhar/observar, contemplar, mimar, sobretudo se for pai desse bebé. Não se trata apenas de uma reacção espontânea de amor face ao bebé, trata-se também de uma resposta complementar ao comportamento do bebé, nomeadamente o choro. Com efeito, quando o bebé chora, os pais têm o impulso natural de lhe pegar e envolver. Quando penso nisso, constato a maravilhosa complexidade e sabedoria da natureza: à imaturidade do bebé corresponde a resposta natural do adulto em agarrar, cuidar, acalmar, ensinar.
Quem sabe qual a boa dose de mimo? Aquela dose suficiente, que bem responde às necessidades de segurança, carinho, aconchego, conforto, proximidade física e emocional do bebé? Não sei se alguém sabe, mas a maioria das pessoas afirma “saber” que a “dose” dada pelos pais é a mais. O mimo parece sempre ser em dose demasiada… Desde que nasce, e às vezes ainda antes, o bebé, pela interposta pessoa dos seus pais, é confrontado com uma série de ditames que afirmam que deve ser o mais rapidamente possível auto-suficiente, autónomo, responsável e sério.
Porque exigimos tanto dos bebés? E de seus pais? Porque se pretende que a resposta espontânea e natural dos pais não seja a mais adequada ao bebé?
Neste sentido, será que a questão do mimo deverá centrar-se no quanto (quanto mimo) ou no quando (até quando o bebé precisa deste tipo de mimo) ou/e no tipo de mimo (de que tipo de amor estamos a falar)? Questões que só por si exigiriam um outro artigo… Realizarei neste artigo uma primeira reflexão a esta temática.

O ritmo do amor não tem regras pré-determinadas e fixas
Após o parto e durante um tempo dificilmente definível por alguém do exterior, mãe e recém-nascido querem, precisam, estar juntos, em íntimo contacto pele a pele. Prolongam a simbiose que conheciam quando aquele bebé estava no útero materno. A separação, normalmente, é sofrida para ambos. Para a mãe, é bom, volvidos 9 meses, ter o seu bebé ao colo e poder tocar-lhe e transmitir-lhe, através do seu toque, do seu olhar, da ternura na sua voz, o quanto o ama. Para o bebé, estar no colo da mãe, sentindo-a, cheirando-a e olhando-a, confere um sentimento de continuidade à sua vivência. Esteve toda a sua vida unido intimamente àquela pessoa, ela é toda a realidade que conhece, que manter-se perto dela confere segurança, confere um sentimento de continuidade na sua experiência de vida.
Neste sentido, questiono-me porque tanto se culpabilizam as mães e os pais por quererem ter os seus filhos recém-nascidos “24 horas” perto de si e nos seus braços. Não se trata, a meu ver, de um perigo para a independência do bebé; trata-se, sim, de um comportamento sensível por parte dos pais, que mantêm coerente e una a experiência do bebé que acabou de sair do útero de sua mãe e que se sente perdido longe da mãe e do pai. E esta necessidade mantém-se, ainda que com gradações diferentes, ao longo do percurso de deixar de ser bebé e tornar-se criança.
Esta necessidade justifica-se, em meu entender, pelo facto de mãe e pai funcionarem como “prolongamentos” do bebé. Incapaz de suprir sozinho as suas necessidades, o bebé chama os pais. E chama-os porque tem fome, porque tem sono, porque tem frio/calor, porque quer conforto, porque quer carinho, quer companhia. Quando nasce, todas estas sensações são avassaladoras e intensas. O bebé não as consegue ainda regular. De modo que pode chamar os pais a todo o instante, acalmando-se quando no colo. É a presença efectiva e afectiva dos pais que lhe traz o sentimento de segurança e de confiança. O recém-nascido verifica que os pais respondem às suas necessidades, trazem-lhe a certeza de não estar sozinho. Por outro lado, sente-se tranquilo com o seu tom de voz, o quente do seu corpo e o ritmo do bater do seu coração (bem conhecido no que diz respeito ao da mãe).
Pode ser uma fase bastante exigente para os pais, sobretudo para a mãe, se o bebé estiver a ser amamentado. Eu recordo-me que, no 1º mês de vida da minha filha, a minha presença era necessária quase constantemente. Lembro-me bem de como isso pode ser esgotante para uma mãe, pois não consegue descansar. Mas também de como não se consegue agir de outra forma, pois o apelo do bebé é muito forte. E isto não significa que este seja um ditador ou mesmo manipulador. Significa, sim, que se exprime bem e que descansa quando reconhecem e respondem às suas necessidades. Não é o que sucede connosco, adultos? Na ausência da boa e adequada resposta, fica a frustração, a decepção… e o desenvolvimento fica em suspenso, à espera… Afinal, recém-nascidos, bebés, crianças, adolescentes ou adultos, homens ou mulheres, somos todos pessoas. E a necessidade de resposta afectiva, sensível e contingente às nossas necessidades é transversal ao ser humano.
E é esta resposta pronta e afectiva que vai ajudando o bebé a regular-se e a transitar do ciclo uterino para o ciclo da vida no exterior. E é neste respeito pelo ritmo do bebé que a independência e a autonomia vão acontecendo. Reconhecendo que aquele bebé já é uma pessoa.
É, pois, minha opinião que os pais se devem regular pelo ritmo do seu filho. Esse é o ritmo do amor. Não há dois bebés iguais. Não há duas pessoas com necessidades iguais. Mas uma necessidade todos temos enquanto seres humanos: crescer. E para isso, necessitamos sentirmo-nos amados, reconhecidos e respeitados e que é no seio desse amor que nos sentimos estimulados e incentivados a crescer!
Os pais emocionalmente disponíveis intuem/sabem quando é necessária a sua presença junto do seu bebé. Sabem-no porque conhecem bem as suas necessidades, atentos que estão a ele desde que nasceu, mas também porque observam e constatam as suas capacidades crescentes. É este o ritmo do crescimento: da base parental para o mundo. E este ritmo é específico de cada bebé, sem comparações, culpabilizações ou desvalorizações. Se se olhar para a especificidade de cada um, apenas podemos ver as suas conquistas com orgulho e alegria!
 Assim, o desafio é estar disponível emocionalmente para se sentir e “ouvir” as necessidades e as competências específicas daquele bebé. E não há pessoas melhores para o entenderem do que os pais. Porque são as pessoas que mais amam aquele bebé, porque estão com ele 24h por dia, porque, com sensibilidade, são as pessoas que vão descodificando o ritmo de crescimento do seu filho, que vão notando os seus “imensos” progressos e mudanças desde que nasce e o estimulam de forma sensível e contingente às suas competências.
É certo que faz parte da nossa natureza, enquanto seres humanos, procurar padrões. A capacidade que temos de o fazer, ajuda-nos a analisar situações, prever o seu desenvolvimento, antecipar ocorrências. Mas esse é um paradigma do pensamento que se está a alterar, cada vez mais compreendendo-se que a relação humana é dinâmica, sistémica e, essencialmente, complexa. O que serve para uma tríade, pode não servir para outra. Há que se ser sensível e contingente às diferenças que surgem com cada filho, que sofrem a influência do contexto actual da vida da tríade e da vida pessoal de cada um dos elementos. É, pois, difícil falar de padrões. É difícil dizer que se deve fazer assim ou de outra forma. Depende. Depende daquele bebé e das circunstâncias que rodeiam a família nos momentos que vão colorindo a sua vida.
No fundo, seguir o ritmo do amor é dar-se a si mesmo por inteiro à relação com aquele bebé. Dar-se de uma forma inteira e plena, sem normas, nem constrangimentos – como nos damos quando estamos apaixonados! Quem “dita” as regras é quem está na relação; não quem está de fora. Esses normalmente são para ser contrariados!