26/09/2013

Direito a brincar com o lado infantil dos pais

Jornal Público (8 de Setembro de 2013)

Catarina Rodrigues
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

Brincar apaixonadamente com o seu bebé é o modo mais natural de relação com este e aquele que melhor o ajuda a crescer. O enamoramento tem a grande virtude de trazer um olhar mais tolerante e menos exigente e torna o brincar/o prazer a base da relação. Contudo, nem todos os pais se sentem à vontade para brincarem com o seu bebé. Provavelmente, não souberam o que foi brincar com os seus próprios pais. E muito provavelmente, com o passar dos anos, esqueceram o que sentiram e o que pensaram quando crianças. Outros podem não ter esquecido, mas calaram a voz infantil para privilegiar a voz de adulto (confundida com autoridade), provavelmente porque os faz sentir mais seguros e confiantes.

Em meu entender, comunicar/brincar com o seu filho depende essencialmente da sua capacidade para tomar contacto com o seu lado infantil e para refletir sobre a sua experiência como bebé e criança. Efetivamente, compreendemos melhor os nossos filhos quando a sua comunicação (não verbal e verbal) encontra ressonância e empatia dentro de nós. Ou seja, quando o nosso filho comunica diretamente com o nosso “bebé interior”.

Quando falo em “bebé interior”, refiro-me à imagem que guardamos a partir da experiência que tivemos enquanto bebés, do modo como sentimos a relação com os pais: o que guardamos do que foi bom (e é para repetir) e o que guardamos do que não foi bom (e que pretendemos fazer diferente ou, na ausência de consciência, projetamos para o exterior). Contudo, esclareça-se, nem sempre tal imagem coincide com o bebé real que se foi na infância, ainda que se encontre sempre em relação com ele.

O “bebé interior” tem a ver com o nosso “eu” mais genuíno. É a expressão interna de uma matriz relacional assente na expectativa precocíssima de um cuidado parental assente na tolerância, no estímulo, na espontaneidade e no amor. Tal cuidado parental é reconhecido precocemente, e de modo não consciente, pelo bebé, funda o psiquismo e influencia de forma inequívoca o estilo relacional da pessoa. A sua ausência faz surgir a resposta psicopatológica.

Quando em contacto com o nosso “bebé interior”, ficamos mais aptos a compreender que muitas vezes somos injustos, culpabilizantes, humilhantes, agressivos e intolerantes com os nossos filhos, porque respondemos com uma contra-identificação ao seu lado infantil. Usamos e abusamos da voz de adulto autoritário, porque temos pouca tolerância em pensar sobre as razões porque os nossos filhos não fazem aquilo que dizemos. Talvez tenhamos dificuldade em olhá-los como seres com vontade própria e capacidade de escolha precoces. Talvez nos custe sabê-los como seres independentes e com impulso para a autonomia logo desde o nascimento. Talvez nos sintamos inseguros… e usemos a farda de pais porque precisamos sentirmo-nos importantes.

Aquilo que pretendo transmitir é que, enquanto pais, podemos e devemos dar ouvidos à nossa voz infantil e comunicarmos, brincando (a linguagem do bebé), com os nossos filhos com a liberdade e a espontaneidade que estes possuem face ao mundo. Pode constituir, inclusive, a oportunidade de expansão do seu “eu”, mais capaz de uma relação de maior proximidade, liberdade, satisfação e amor.

Comunicando através da voz da infância, percebemos que estar com o nosso filho não tem de ter a tónica no educar, mas no escutar a sua vontade. É ele o nosso guia na brincadeira, mostrando o que quer conhecer/explorar/brincar. Sentemo-nos no chão com ele. Andemos atrás dele a ver o que nos quer mostrar. Olhemos com o olhar infantil e deslumbremo-nos com a luz, a cor, a forma das coisas em que o nosso filho toca e toquemo-las como ele o faz. E novamente crianças, damos por nós a sorrir, maravilhados como ele. Depois, como se de mágicos nos tratássemos, podemos desvelar-lhe mais potencialidades dessas mesmas coisas. E colocar mais brilho nos seus olhos, vivos e ávidos de novos conhecimentos.

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